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O significado do toque do shofar e de seus múltiplos sons

por Rabino Y. David Weitman
toque do shofar

O SIGNIFICADO DO TOQUE DO SHOFAR E DE SEUS MÚLTIPLOS SONS

A principal mitsvá de Rosh Hashaná é ouvir o toque do shofar. Esse chifre de carneiro é o mais antigo e primitivo instrumento de sopro, e seu chamado sensibiliza o que há de mais profundo em nossa alma. O toque do shofar acontece na sinagoga, durante as orações nos dois dias de Rosh Hashaná. Mesmo se alguém não puder participar de todo o serviço na sinagoga, deve procurar, ao menos, ouvir o toque do shofar, que acontece após a leitura da Torá.

A RAZÃO DE SE TOCAR O SHOFAR
Muitas pessoas podem se perguntar: “Por que, em vez de tocar o shofar, simplesmente não transmitimos as mensagens da ocasião com palavras?” Afinal, o uso dos sons de instrumentos, em vez de palavras, evoca imagens dos tempos das cavernas, quando nossa capacidade verbal era muito limitada para transmitir ideias complexas. Nos dias atuais, sabemos como articular nossos pensamentos através da linguagem. Então, por que não bastariam as palavras?

O fato é que articulamos demais durante as Grandes Festas. Permanecemos por horas a fio fazendo apelos, com fervor, página após página do livro de rezas. Contudo, há um nível de emoção que foge à nossa capacidade de articulação, que atinge uma profundidade que vai além do discurso. Tais profundezas não podem ser acessadas apenas com palavras.

Cada idioma tem um equivalente para a exclamação um pouco dolorosa, os “ais” da vida. No entanto, não importa qual língua falamos, quando experimentamos uma dor muito intensamente, nossa reação é gritar. Não dizemos “estou sentindo dor”. Sequer dizemos “ai”. Em vez disso, emitimos um grito que expressa nossa dor muito além das palavras.

O mesmo acontece com a emoção. Alguns sentimentos podem ser comunicados por meio da poesia. Outras emoções mais profundas são transmitidas com um simples olhar. Às vezes as emoções são tão intensas que provocam lágrimas de alegria. Algumas emoções são tão poderosas, tão profundas, que tudo o que se consegue fazer é suspirar e deixar escapar um “Aaaah” que vem de nosso íntimo.

Há ainda a emoção que está além de qualquer verbalização possível. Nem mesmo o som de um grito ou de um suspiro pode capturá-la. Isso é o que uma alma judia sente em Rosh Hashaná, pois não há nenhum som emitido pelo ser humano que expresse o nosso profundo, vasto e penetrante vínculo com D’us. Por isso utilizamos um instrumento, o shofar. Assim, criamos em nossos corações uma abertura poderosa o suficiente para liberar o fluxo de emoções longamente reprimidas. Criamos uma abertura em nossas almas, através da qual nos é revelado um inexplorado anseio por D’us..

É por isso que o momento do toque do shofar é tão especial e edificante. É possível sentir o shofar dedilhar as cordas de nossa alma. É possível sentir as vibrações profundas e suas conexões poderosas. É por este motivo que muitos judeus que não frequentam a sinagoga durante o ano, fazem questão de ir em Rosh Hashaná. Como seria possível perder esse momento que é a experiência mais significativa e poderosa no vasto repertório de nossa tradição.

OS TOQUES REPETIDOS

Um toque longo é chamado de tekiá; três toques curtos são chamados de shevarim; nove toques curtos conse- cutivos são chamados de teruá. Os toques soam nessa ordem, e, então, a tekiá é tocada novamente fechando a sequência, um único toque longo após os outros dois. Mas qual é o significado dos diferentes toques do shofar e da repetição da tekiá?

A longa toada é a menos articulada, e, embora o som dos outros toques também não tenha palavras, difere em caráter da tekiá. Os shevarim são suspiros profundos; a teruá é como o soluço de um choro, e ambos comunicam uma mensagem que nos diz o que sentir. Mas a tekiá é apenas um grito, um lamento profundo e penetrante que não diz nada em particular. Vem das profundezas e não tem mensagem além de um simples “estou aqui”.

O suspiro e os soluços indicam tristeza por termos permitido certo distanciamento de D’us. Já a tekiá é capaz de gerar uma verdadeira explosão dentro de nós, expressando assim nossa ânsia por D’us.

A primeira tekiá é o grito agonizante de nossas profundezas; a segunda tekiá é a resposta que D’us nos dá. Assim como nosso anseio surge de nosso âmago, a resposta de D’us emerge de Suas profundezas.

“Da estreiteza eu clamei a D’us; da vastidão, D’us me respondeu”, diz o versículo que se recita antes de tocar o shofar. O primeiro toque clama a D’us extravasando o nosso anseio por Ele, que estava oculto em nosso âmago. A resposta Divina vem da Fonte Celestial, que está repleta de amor e perdão. É a Fonte pela qual buscamos. O primeiro toque dá voz ao nosso desalento; o segundo toque dá voz à Sua resposta.

Em resumo, os sons do shofar comunicam a seguinte mensagem: tekiá, ansia- mos por D’us de nossas profundezas; shevarim e teruá, sentimos tristeza por não termos cuidado tão bem de nosso relacionamento com D’us; tekiá, D’us responde com amor e diz: “Voltem, meus filhos, voltem. Não importa por onde vagueiem, serão sempre bem-vindos de volta à Nossa Casa”.

Fonte: Artigo da Revista Celebração do Beit Chabad Morumbi

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