Para Meir Halberstam, de abençoada memória
Em 1936, o jovem Meir Halberstam e sua família mudaram-se para a sagrada cidade de Jerusalém. Por ocasião de seu bar mitsvá, seu pai mandou-o de volta à Polônia para celebrar esse auspicioso dia com o seu avô, que lá permanecera.
O jovem Meir chegou à Polônia no momento em que se tornavam mais fortes os sinais de uma guerra iminente. Familiares e membros da comunidade lutavam para salvar suas vidas. Impossibilitado de voltar a Jerusalém, Meir fugiu com o avô e sua família para a Rússia, pois pensaram que assim estariam seguros.
O governo russo aproveitou essa oportunidade para submeter a trabalhos forçados os refugiados poloneses, que agora inundavam o país. Meir, seu avô e todos os que estavam com eles foram acusados de ser inimigos do Estado e condenados a trabalhos pesados na implacável tundra siberiana.
À medida que o verão fugaz acabava, trazendo ventos uivantes de gelar os ossos, Rosh Hashaná se aproximava. O jovem Meir percebeu que, com o passar dos dias, seu avô ficava cada vez mais deprimido. “Como vamos tocar o shofar?”, questionava o Rebe.

Meu avô aos 13 anos, sua idade quando esta história aconteceu
Embora ele tivesse consigo o shofar que pertencera a seus antepassados, a ideia de ser pego pelos perversos guardas russos o enchia de pavor.
Duas noites antes da Festa, o jovem Meir decidiu executar um plano ousado. Acordou durante a noite e enrolou suas mãos e pés em panos, para abafar qualquer som que pudesse fazer. De sua janela, observou os guardas bebendo ruidosamente e dançando até tarde da noite. Aguardou até que eles estivessem totalmente embriagados, para então, enfrentando o vento e o frio, caminhar até a entrada do campo, onde havia um enorme sino. Meir olhou para todas as direções e subiu em um poste alto até chegar ao topo do sino. Com toda a sua força, desenrolou a corda que prendia o sino e o deixou cair no chão, estilhaçando-se em milhares de cacos. Com a mesma agilidade e silêncio, Meir deslizou de volta para o chão e voltou ao seu alojamento.
Na manhã seguinte, houve um alvoroço. Os guardas viram o sino quebrado e perceberam que agora enfrentariam um grande problema. Afinal, como fariam para acordar os prisioneiros todas as manhãs? Levaria semanas até que conseguissem um novo! Quando os prisioneiros estavam de pé, os guardas, furiosos e desnorteados, procuravam alguém para culpar.

Com meu avô, o rabino Meir Halberstam, de abençoada memória, há 12 anos, em seu aniversário de 80 anos
Em algum momento, no início da década de 1940, ao fim de um breve verão siberiano, meu avô, o rabino Meir Halberstam, na época um menino de 13 anos, foi levado a um campo de trabalho junto com seu próprio avô, o Rebe de Zmigrad, rabino Sinai Halberstam.
Meir sussurrou ao avô sobre a corajosa missão que tinha realizado na noite anterior e lhe contou seu plano. Seu tio, que também ouvira o relato, adiantou-se, oferecendo ajuda ao comandante para resolver o problema. Ele explicou que possuía um velho chifre de pastor e que seu pai tocaria com prazer todas as manhãs para acordar os prisioneiros, até que recebessem um novo sino. O comandante exigiu que ele trouxesse o chifre imediatamente. O Rebe chegou com o shofar na mão e começou a soprar, emitindo toques que se propagaram nitidamente pelo campo.
“Deixe-me soprar”, gritou o comandante, arrancando o shofar das mãos do Rebe. Ele o levou à boca, mas, por mais forte que soprasse, nenhum som saía. Nesse instante de frustração, o tio de Meir disse ao comandante que seu pai era um “soprador profissional” e talvez ele pudesse soprar o chifre todas as manhãs. O comandante aquiesceu e nomeou o Rebe para a função de acordar os demais prisioneiros. Até que um novo sino chegasse, seria a responsabilidade dele acordar os prisioneiros todas as manhãs.
A notícia logo se espalhou pelo campo, e todos os prisioneiros judeus souberam que o Rebe de Zmigrad tocaria seu sagrado shofar na manhã seguinte, o primeiro dia de Rosh Hashaná.
Enquanto o sol ainda se escondia no horizonte, anunciando a manhã gelada, os prisioneiros judeus já estavam de pé, esperando ansiosamente por aqueles sons tão conhecidos. O Rebe chorou enquanto soprava, os prisioneiros choraram e oraram, e o jovem Meir estremeceu de orgulho, enquanto notava os sons penetrantes do shofar romper a escuridão, inundando o campo de esperança e força. Naquele momento, ele soube que jamais esqueceria aqueles toques de shofar.
Meu avô enfrentou ainda muitos outros percalços até poder retornar ao porto de Israel (Palestina, na época), onde foi recebido com alegria e celebrações pelos grandes milagres que tinha merecido vivenciar.
Sendo neta do rabino Meir Halberstam, de abençoada memória, apenas recentemente ouvi essa história, que me marcou profundamente. Sempre vi Rosh Hashaná como um momento de esperança e positividade, confiante na crença de que D’us nos dará amparo e nos conduzirá a um lindo e doce ano novo. Penso sobre o toque do shofar que meu avô havia orquestrado tantos anos atrás e em condições tão impossíveis, e na força que isso deu a ele e aos outros judeus que o ouviram. Talvez este ano, se fechar os meus olhos e procurar ouvir com minha alma, eu também ouça os mesmos sons de fé, coragem e esperança que meu avô ouviu naquela manhã gelada na Sibéria.
A autora, Chava Halberstam é uma educadora e escritora que vive com o marido e os filhos em Amsterdã.
Adaptado de chabad.org
Fonte: Artigo da Revista Celebração do Beit Chabad Morumbi






