Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico, é traduzido literalmente como “Cabeça do Ano”. Isso leva pois a ideia do título um povo com duas cabeças a um simbolismo no qual falaremos mais abaixo.

“Rosh” quer dizer a “cabeça do corpo”, mas pode ser usado também como sinônimo de algo importante, como por exemplo: Rosh leshivá (diretor de leshivá), Rosh Pina (pedra angular), etc.

A cabeça rege os outros membros do corpo, e mante-la saudável é então a maior preocupação do homem.

Portanto, é aconselhável em Rosh Hashaná tratar de assuntos relativos a saúde da cabeça do povo judeu, para que o corpo fique sadio o ano inteiro.

Uma história ilustrativa

Com relação à cabeça, aliás, a literatura talmúdica (Beit Hamidrash IV, Tossfot Menachot 37a) nos relata um interessante julgamento realizado na época do Rei Salomão.

Um pai de família faleceu, deixando sua herança para sete filhos. Um deles possuía duas cabeças e achava que a herança deveria ser dividida em oito partes, cabendo-lhe duas porções. Os irmãos discordavam, achando que a herança deveria ser dividida em sete partes iguais.

O problema foi levado aos Sábios, chegando ate a Corte Suprema (San’hedrin), que não soube como julga-lo, recorrendo a ajuda do sábio rei Salomão. Assim, o rei aceitou o caso, pedindo que todos comparecessem ao seu palácio na manha seguinte.

À noite, o rei Salomão foi ao Templo rezar, quando lembrou ao Todo-Poderoso que ele não havia pedido contudo  nenhuma honra nem riqueza, apenas sabedoria.

Como era de se esperar, este caso atraiu muitos curiosos. Pela manhã, o rei Salomão, inspirado pela sabedoria Divina, mandou trazer água fervente para despejar em uma das cabeças deste ser estranho, dizendo o seguinte: “Se as duas cabeças gritarem de dor, é apenas uma pessoa; se uma gritar e a outra não, são duas pessoas diferentes”.

E assim foi feito enfim. A água foi jogada em uma cabeça e logo as duas cabeças começaram a gritar de dor.

Neste momento, então, o rei Salomão proclamou o veredicto que era uma só pessoa e a herança deveria ser dividida em sete partes. Mais uma vez, esta decisão salomônica foi aclamada por todos.

Interpretação figurativa para um povo com duas cabeças

Sem desconsiderar o conteúdo literal desta historia de um povo com duas cabeças, alguns também a interpretam de maneira figurativa.

Após o reinado de Salomão, ocorreu pois a famosa cisão entre os Reinos de Israel e Judá. Já nos últimos anos de vida do rei Salomão havia discórdia entre as Tribos de Judá e Efraim.

A situação chegou a tal ponto que alguns temiam uma divisão categórica, gerando pois dois povos com duas cabeças.

O rei, preocupado com esta desavença que poderia levar a uma divisão concreta do povo, resolve testar se as divergências são apenas superficiais ou profundas (dois povos com duas cabeças).

E a melhor forma de saber isso é ver se ambos sentem dor e aflição pelas mesmas mágoas—a mesma dor pela água fervente.

Hoje, ouvimos muito sobre as divergências dentro do povo judeu. Fala-se em ortodoxos e ultra-ortodoxos de um lado e liberais e ultra-liberais do outro.

Também na Terra Santa existem profundas diferenças entre a direita e a esquerda e os extremos de ambos os lados. Alguns, precipitados, falam de uma ruptura definitiva. Outros nos assediam falando repetidamente em divisão do povo de Israel. Muitos temem ver dois povos com duas cabeças.

A assimilação

O julgamento salomônico relatado acima nos permite checar se estas divergências são apenas superficiais ou se estamos a beira de um cisma perigoso.

A realidade nos mostra que todas as correntes do judaísmo sentem uma profunda dor quando somos afligidos por sofrimentos materiais ou espirituais.

Todos os irmãos choram e gritam quando veem as cenas chocantes dos últimos atentados terroristas em Israel.

Assim também, na esfera espiritual, as águas ferventes da assimilação causam dor a todos nós.

Tenho a certeza de que mesmo familiares atingidos por casos de casamento misto ficam com o coração partido.

A água fervente do rei Salomão corresponde hoje a praga que mais nos atinge: a assimilação.

Recentemente, quando esteve de visita a nossa cidade, o professor Sergio Della Pergola, autoridade de renome mundial em estatística da Universidade de Jerusalém, apresentou dados alarmantes.

O número de judeus está diminuindo e a população judaica esta envelhecendo. Algumas comunidades totalmente seculares apresentam uma taxa de 72% de assimilação. Outras, mais felizes, possuem um mínimo de 53%. A continuar desta forma, em quinze anos a população judaica diminuirá drasticamente.

Todos que o ouviram ficaram perplexos e preocupados.

Águas traiçoeiras

Este fenômeno e a água fervente que fere as nossas famílias. Este fogo estranho consome os melhores jovens dos nossos efetivos.

O salmista as chama de “águas traiçoeiras que atingem a nossa alma” (Salmos 124:5).

Quem não sente mais dor por este fenômeno está portanto realmente se excluindo da comunidade, já que não sente mais o fervor do liquido que queima.

Todavia, como mencionado anteriormente, todos nós. sem exceção, sentimos uma profunda dor quando tais fatos ocorrem ou chegam aos nossos ouvidos.

Sem duvida nenhuma, as divergências entre os vários segmentos do povo de Israel são apenas superficiais. Não podemos enquadrá-las dentro dessa ideia figurativa de um povo com duas cabeças.

As diferenças não estão enraizadas profundamente, já que todos sentimos a mesma dor pelas adversidades que recaem sobre nós.

Afinal, cada judeu possui dentro de si a chama eterna, a faísca Divina. Todo e qualquer judeu, sem exceção, desde o mais justo ao mais perverso, do mais erudito ao mais ignorante, fala em sua prece matinal “Ó. meu D-us, a alma que me deste é pura”.

Esta faísca Divina é o denominador comum que assegura sermos um só povo. Temos que nos concentrar naquilo que nos une, naquilo que temos em comum, e não enfatizar constantemente as diferenças que nos separam.

Como combater a assimilação

E a assimilação? Como pois combatê-la? Água fervente tem que ser esfriada então com água fria e pura.

O Tanach, bem como os sábios do Talmud, compara a Torá com a água pura e límpida. É assim um liquido vital para a sobrevivência do homem.

Assim, também, a Torá e seus ensinamentos são imprescindíveis para a sobrevivência do povo judeu.

O antídoto para as águas ferventes e assimiladoras é espalhar o máximo possível os ensinamentos da Torá. Esta a fonte das águas saudáveis. Principalmente na nossa época, quando a procura é grande e existe uma ânsia manifesta da alma judaica pela sua Fonte — D-us. Como diz o salmista: “Minha alma tem sede de Ti, minha carne anseia por Ti” (63:2).

Do mesmo modo que o Rebe de Lubavitch tantas vezes enfatizou que a escuridão não se dissipa com uma vassoura, mas com a luz, também as águas quentes devem ser substituídas pela água límpida e pura da Tora e das Mitsvót.

Citando então o profeta Isaias: “Todos que tem sede procurem água” (Isaias 55:1). 

Apesar das divergências aparentes, o veredito salomônico é bem claro: somos apenas um povo, ligados somente a um D-us, e não um povo com duas cabeças.

A saga do povo judeu demonstra que ele não é regido pelas leis da natureza. Tampouco é sujeito às estatísticas pelo fato de ele ter a habilidade inerente de apagar as águas ferventes. Com efeito, ele está ligado a fonte milenar, que é o judaísmo. Com efeito, rejeitamos a ideia de ser um povo com duas cabeças.

(Publicado no Jornal Tribuna Judaica em Novembro de 1997 )

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