O ARREPENDIMENTO É UMA ARMADILHA…
Houve uma época em que as pessoas passavam todas as noites antes do Yom Kipur (e especialmente a véspera) refletindo sobre seus pecados, suas falhas e tudo de errado e ruim sobre si mesmas.
Choravam de soluçar, adormeciam chorando e então se levantavam na manhã seguinte sentindo-se com a alma purificada para servir ao seu Criador.
Costumavam fazer isso em outros dias do ano e também funcionava muito bem.
Hoje em dia, quando alguém pondera sobre suas falhas, isso quase inevitavelmente leva à depressão.
Ao refletir sobre um pecado passado, a pessoa começa a se perguntar por que fez uma coisa tão estúpida, lembra-se de como foi e acaba cometendo mais pecados.
O que teria acontecido? Simplesmente a escuridão se adensou. Quando se está cercado de luz, não há problema em espiar alguns cantos escuros; talvez até se encontre algo valioso que se perdeu. Mas quando se vive em um mundo de luzes fracas com todas as cortinas fechadas, os cantos escuros tornam-se buracos negros de atração gravitacional implacável.
Ao ponderar sobre seus pecados, você pode apenas chegar à conclusão de que realmente gostou deles. É por isso que o arrependimento é tão perigoso, hoje em dia.
Certa vez, recebi uma ligação pedindo orientação sobre o tema:
— Rabino, eu errei! Como me arrependo? — Arrepender-se? Fique longe dessas coisas! É perigoso!
— Mas rabino, o que eu faço com esse negócio de pecado? Isso está bagunçando minha vida?
— Basta começar a caminhar em direção à luz.
— Mas então eu nunca passarei pelo verdadeiro arrependimento, como está escrito em todos aqueles livros que falam de profundo remorso e choro por seus pecados.
— Pois esqueça o remorso e o choro. Apenas supere-os! O arrependimento é uma armadilha; é como uma cobra repugnante e autodestrutiva que quer comê-lo no almoço! E você é o almoço.
— Não, rabino, não! Eu tenho que me arrepender!
— Você não quer se arrepender, você quer um replay!
—Um o quê?
— Uma repetição. Ok, vou explicar: quando a mente experimenta algo prazeroso, é programada para reproduzir a situação sucessivas vezes, até que reconecte todos os neurônios, afetando o sistema límbico e levando consigo todo o sistema endócrino. Assim, quando os estímulos associados aparecerem novamente, seja por visão, cheiro, som ou o que for, todo o seu ser visceral estará pronto para atacar, como um predador. Mas você não vai deixar sua mente repetir esse mesmo pecado específico, porque você sabe que foi realmente imoral, ruim e infeliz. Portanto, sua mente, sendo tão inteligente quanto você (uma vez que é a sua mente, afinal de contas), surge com uma solução. Ela lhe diz: “Não quero um replay, quero me arrepender”. E não é bem assim, o que se quer é uma repetição. Nada a ver com arrependimento.
— Mas quando vou me livrar de todas as coisas feias que parecem grudar em mim por causa da coisa repugnante que fiz?
— O cérebro fará qualquer coisa para conseguir repeti-la. Até mesmo convencê-lo a se arrepender. Portanto, não se arrependa. Em vez disso, faça teshuvá.
— É justamente isso que eu disse que queria fazer!
— Não, você disse que queria se arrepender. Estou dizendo para você fazer teshuvá, que significa “retorno”. Retorne para a luz de onde se originou sua alma. Quando caminhamos em direção à luz, preenchemos a vida com mais sabedoria, mais compreensão, mais mitsvot, mais alegria, amor e beleza. A luz se torna cada vez mais brilhante, e desejamos falar com D’us, direta e honestamente. É nesse momento que percebemos que a “bagunça” do passado quer nos puxar de volta, como uma mochila pesada e inútil nas costas, como um pedaço de barro no coração, como um muro em frente do verdadeiro lugar de sua alma; é quando se sente um dolorido remorso crescer no fundo do coração. É quando queremos gritar: “Saia do meu pé!”. Então, olhando para trás por um segundo, jogamos aquele lixo fora e seguimos em frente. É aí que a gente se arrepende, que volta à luz de onde se originou nossa alma – mas não antes disso.
ALCANCE A LUZ. SINTA A PRESENÇA INFINITA DE D’US, CRIADOR DE TODAS AS COISAS, QUE ESPERA SEU RETORNO A ELE COM AMOR.
Durante os 10 dias entre Rosh Hashaná e Yom Kipur há muita luz. Yom Kipur é o dia mais sagrado do ano e não deve ser desperdiçado. Não passe a época mais sagrada do ano pensando nas coisas tolas que você já fez. Por que desperdiçar o dia mais sagrado do ano pensando em tudo que você destruiu?
Em vez disso, alcance a luz. Sinta a presença infinita de D’us, Criador de todas as coisas, que espera seu retorno a Ele com amor. E quando você voltar, deixe que a “bagunça” suma para nunca mais voltar. Porque você nunca mais vai querê-la de volta depois de sentir-se abraçado por Sua luz.
Por Tzvi Freeman, adaptado de chabad.org
Fonte: Artigo da Revista Celebração do Beit Chabad Morumbi




