Comunidade Judaica de Adelaide
UMA EMOCIONANTE HISTÓRIA DE ROSH HASHANÁ
Esta história aconteceu durante os primeiros anos depois de minha mudança para Sydney, na Austrália, quando eu dava aulas na metade do tempo e trabalhava na empresa de meu sogro, na outra metade.
Algumas semanas antes de Rosh Hashaná, recebi um telefonema do presidente da comunidade judaica de Adelaide. Ele gostaria que eu celebrasse lá as Grandes Festas, já que a sinagoga local não tinha rabino. Na época, nossos quatro filhos eram pequenos e, portanto, sair de casa para passar as festas em uma cidade distante teria sido difícil. Acabei recusando a oferta.
Algum tempo depois, recebi uma carta registrada do Rebe de Lubavitch. Sua mensagem dizia: “Como você pôde recusar o pedido?! É uma ocasião muito importante e você tem o dever de ir!”.
Ao que parece, tinham comunicado ao Rebe a minha recusa.
No final da carta, o Rebe acrescentou uma anotação: “Enquanto estiver em Adelaide, preocupe-se com as necessidades dos judeus egípcios que ali moram”. Eu não sabia o que fazer a respeito desta vaga instrução.
Cheguei em Adelaide na véspera de Rosh Hashaná e fui imediatamente à sinagoga. Ao chegar lá, uma mulher de repente se aproximou e perguntou:
– Onde fica o lugar mais sagrado da sinagoga?
Fiquei surpreso pela pergunta e apontei para o Aron Hacodesh, onde estão alojados os Rolos da Torá. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a mulher saiu e voltou com uma adolescente que não enxergava.
Ela a trouxe para perto do Aron Hacodesh e a deixou lá. A menina beijou as cortinas da Arca e sentou-se no chão, aos prantos, soluçando. Minutos depois, a mulher reapareceu, pegou a garota pela mão e saiu.
Foi tudo muito estranho. Procurei o secretário, descrevi a ele toda a surpreendente cena e pedi uma explicação.
– É ridículo! – ele respondeu irritado, e continuou – ela é uma das egípcias. Os judeus egípcios não se dão bem com a nossa comunidade. Os pais dela nem sequer vêm à sinagoga em Rosh Hashaná, por isso ela talvez tenha decidido vir na véspera.
A anotação do Rebe piscava em minha mente: “Cuide dos judeus egípcios”. Ignorei o tom desdenhoso do secretário e corri para fora na tentativa de encontrar a menina, mas ela e a acompanhante tinham desaparecido.
Em Rosh Hashaná, senti o abismo que havia entre a comunidade local e os judeus egípcios. Observei que um pequeno grupo de pessoas dessa origem rezava em uma parte afastada da sinagoga.
Quando o serviço terminou, me posicionei à entrada, conforme o presidente havia pedido, desejando a todos um feliz e próspero ano novo. Notei a presença do pequeno grupo de judeus egípcios, e, quando perguntei a uma assistente, ela disse:
– Eles estão brigados com a comunidade; houve algumas desavenças, e agora eles não têm nenhuma ligação conosco.
No dia seguinte, após o serviço de orações, em vez de ir para a entrada, fui direto até os judeus egípcios para desejar-lhes um bom ano novo. Eu podia sentir os olhares de todos fixos nas minhas costas.
– Há uma garota cega entre vocês? – perguntei.
– Sim – me responderam.
– Onde estão os pais dela?
– Eles não vêm à sinagoga.
– Por favor, dê a ela os meus melhores votos de um bom ano.
Na segunda-feira de manhã, o telefone do meu quarto tocou:
– Alô, aqui é Betty, a menina cega.
Antes que eu pudesse responder, do outro lado da linha alguém agarrou o telefone e desligou.
Foi muito perturbador. Quando chegou quinta-feira à noite, véspera de Yom Kipur, eu estava bastante aborrecido e contei ao chazan o que tinha acontecido.
– Não seja tolo – ele respondeu. Faça o favor de ficar longe dos judeus egípcios. Não cause um alvoroço.
É claro que ignorei aquela sugestão. Pedi a ele que encontrasse o endereço e o número de telefone da garota, e imediatamente liguei para ela.
– Alô. Quem fala é a menina que visitou a sinagoga na véspera de Rosh Hashaná?
– Sim. Quem está falando?
– Aqui é o rabino Gutnick.
A linha ficou muda. Tentei ligar repetidas vezes. Assim que atendiam o telefone, logo desligavam.
Recusei-me a desistir e, então, apesar da hora tardia, peguei um táxi e fui até o endereço da menina. Mais de meia hora depois, por volta das 11 da noite, cheguei à casa dela. Bati na porta. Quando abriram, coloquei meu pé dentro.
– Por favor, viajei uma longa distância e gostaria de falar com vocês – implorei.
Eles me deixaram entrar e sentamos juntos na sala de estar, onde a garota se juntou a nós. Falei com eles de coração. Eu tinha algum conhecimento sobre a vida judaica no Egito, o que ajudou a quebrar o gelo e a ganhar a confiança da família.
Quando a mãe foi preparar um chá, virei-me para a filha. Ela me encarou e começou a soluçar, e meus olhos também se encheram d’água. Perguntei o que havia acontecido, e ela começou a me contar sua história:
– Minha família chegou à Austrália há cerca de um ano, junto com outros judeus que fugiram de Nasser. Sou cega de nascença, e, quando meus pais procuraram uma escola para cegos, a única instituição que havia era católica. As pessoas da escola eram muito simpáticas, e os meus pais gostaram, porque eu ganhei uma bolsa integral. Mas, então, cinco meses depois, o sacerdote local começou a dar palestras semanais sobre Cristianismo e a falar comigo sobre a sua religião. Eu não levei nada do que ele disse a sério. No entanto, alguns meses depois, disseram aos meus pais que, para eu continuar lá sem nenhum custo, eu teria que me converter. Um dia, ouvi meu pai dizer à minha mãe que não tínhamos outra escolha a não ser concordar com a conversão. Fiquei devastada.
Acalmando-se, ela continuou:
– Apesar de saber muito pouco sobre Judaísmo, sei que sou judia. Sei que há um D’us e decidi rezar para Ele. Um dia, antes de Rosh Hashaná, bati à porta da minha vizinha não-judia e pedi que me levasse à sinagoga. Ela me levou até lá e, a meu pedido, me guiou até o lugar mais sagrado. Caí no chão chorando e pedi a D’us que me mostrasse o que fazer. Depois voltei para casa e esperei.
– Em Rosh Hashaná, alguns amigos vieram nos visitar – contou a menina. Quando me viram, eles brincaram: “Betty! Há um rabino que veio de Sydney e só fala em você! Como ele a conhece?”. Quando ouvi aquilo, corri para o meu quarto e chorei, chorei muito. Sabia que esse era o sinal que D’us estava me enviando. Tentei telefonar para você, mas minha mãe não deixou. Ela tinha medo de que você pudesse me convencer a não me converter, e eu teria de sair da escola. Mas, de algum modo, eu sabia que você iria me ajudar.
– Betty, você fará tudo o que eu mandar? – perguntei.
– Sim, mesmo se você me disser para fugir de casa! – Betty respondeu.
– Não, isso não será necessário.
Os pais dela entraram na sala e, vendo as lágrimas, souberam que ela tinha confiado em mim. Eles também choraram:
– Não queríamos que ela se convertesse; nós somos judeus. Mas que escolha temos? Estamos preocupados com o seu bem-estar.
Eu prometi fazer o máximo para ajudá-los. Então, liguei para o secretário da comunidade judaica, contei-lhe a história e pedi que viesse imediatamente.
– Você ficou louco? – ele exclamou. Já passa da meia-noite! Estou de pijama, dormindo!
– Com ou sem pijama, pegue o carro e venha. A não ser que prefira procurar outro rabino para Yom Kipur – eu disse.
Passadas algumas horas, encontramos uma solução para a família. Prometi manter contato e ajudar como pudesse. Graças a D’us, as coisas se resolveram bem para a menina e sua família.
Alguns anos depois, encontrei-me em particular com o Rebe, em Nova York. Olhando para mim atentamente, com um leve sorriso no rosto, suas palavras foram:
– Aquele “sinal” não foi apenas para a menina. Foi para você também.
Você deve saber que o trabalho de sua vida é abrir os olhos daqueles que não têm visão em questões espirituais. É chegada a hora de você deixar para trás todas as suas outras atividades e se dedicar em tempo integral ao serviço espiritual do povo judeu.
O rabino Chaim Gutnick tornou-se o capelão judeu do exército australiano e é uma figura rabínica proeminente na comunidade judaica australiana e no exterior.
Fonte: Artigo da Revista Celebração do Beit Chabad Morumbi





