Corpo e Alma no Sêder de Pessach
Nas duas primeiras noites de Pessach, realizamos o sêder. Nestas noites afirmamos nosso desejo de elevação acima de tudo o que é mundano. Desta maneira, declaramos a nós mesmos e a todos os presentes que esta é “a época de nossa liberdade”.
A primeira coisa que fazemos na noite do sêder é organizar a keará. A palavra “sêder” em hebraico significa “ordem”. Tudo o que fazemos na noite de Pessach tem grande significado e ordem distinta.
Todo o sêder, a começar pela keará, nos provê ferramentas para atingir a transcendência pessoal, para experimentar a liberdade emocional e espiritual.
Cada item da keará representa um evento histórico e tem sua aplicação prática: seu corpo. Também tem sua alma: seu significado e sua relevância em nossa jornada de liberdade.
ITENS DA KEARÁ
CORPO: A keará é composta por dez itens.
Em um prato grande, bandeja ou pano, são colocadas três matsot inteiras, uma sobre a outra.
Em uma travessa ou pano estendido sobre as matsot, são colocados seis alimentos.
Zeroa, um osso de frango queimado, é colocado no canto superior direito.
Oposto a ele, à esquerda, é colocada a betsá, um ovo cozido.
Abaixo deles, no meio, está o maror, alface romana, endívias e/ou raiz forte.
Abaixo, à direita, está o charosset, uma mistura de nozes moídas, frutas e um pouco de vinho.
No lado oposto, à esquerda, abaixo do ovo, está o carpás, um legume, como uma cebola crua ou batata cozida.
Abaixo do maror está o chazeret, novamente alface romana, endívias e/ou raiz forte.
Portanto, a keará é composta por três matsot junto aos seis outros itens.
Ao todo, são nove itens, e a keará, o prato por baixo, completa o número dez.
ALMA: Os dez elementos da keará refletem a estrutura da consciência humana — que é composta por dez dimensões —, o “DNA espiritual” de toda a existência e do homem.
Os dez itens representam os Dez Pronunciamentos e as dez sefirot místicas, com os quais Ele criou e sustenta o mundo, e por meio dos quais Ele canaliza Suas bênçãos e nos ajuda a nos libertar de nossas limitações pessoais.
MATSOT
CORPO: As matsot são a peça central de Pessach, uma reminiscência do alimento sem fermento que o povo judeu comeu ao deixar o Egito.
No decorrer do sêder, a matsá do meio será dividida em duas. Isso ainda deixará duas matsot inteiras, assim como temos duas chalot no Shabat e nas Festas.
ALMA: A matsá é chamada de “alimento da fé”. Saímos do Egito com tanta pressa que não houve tempo para esperar a massa crescer.
Com apenas este alimento sem fermento, nossos ancestrais partiram para o deserto estéril, contando inteiramente com o Todo-Poderoso para fornecer sustento para toda a nossa nação, milhões de pessoas — homens, mulheres e crianças. A cada ano, revivemos esse evento.
A matsá se assemelha à simplicidade dessa fé. É humilde, permanece plana e simples, sem o enriquecimento de fermento, óleo ou açúcar — nada além de água e farinha.
Da mesma forma, a base da conexão de um judeu com D’us é um vínculo simples e altruísta, que está além de quaisquer benefícios pessoais, razões ou condições.
A chave para a liberdade é a humildade, que nos permite manter a calma e nos prevenir de sermos manipulados por emoções subjetivas.
As três matsot representam as três categorias dentro do povo judeu. Cada matsá é um grupo diferente: Cohen, Levi e Israel.
Elas representam nossos antepassados Abraão, Isaac e Jacob, e também simbolizam as três medidas de farinha que Abraão pediu a Sara para preparar, quando os três anjos os visitaram.
USO: Aguarde, você vai comer essas matsot maravilhosas um pouco mais tarde, logo no início da refeição.
Montamos a keará, a travessa com os alimentos simbólicos, sobre as três matsot.
ZEROA (osso)
CORPO: Um osso, geralmente de frango.
Zeroa representa o sacrifício do cordeiro pascal que nossos ancestrais foram ordenados a comer na véspera do Êxodo do Egito.
Nas gerações seguintes, o cordeiro pascal era levado ao Templo como uma oferenda, assado e comido como parte da refeição do sêder.
ALMA: Lembrar de nossas raízes, de quem somos e de onde pertencemos, ajuda a nossa determinação de nos libertar.
USO: Ao contrário dos outros itens, o zeroa não é comido. Ele permanece na keará até o final do sêder.
BETSÁ (ovo cozido)
CORPO: O ovo cozido representa as oferendas festivas (chaguigá) que também eram servidas na noite do sêder, além da oferenda pascal.
Por que um ovo? Porque embora represente a oferenda, há mais do que isso em seu significado.
O ovo é um símbolo de luto. Os enlutados comem ovos cozidos em sua primeira refeição após um funeral para mostrar que a vida é um ciclo.
Mesmo na alegre festa de Pessach, lembramos que nosso Templo está em ruínas, mas o ciclo vai virar e voltaremos para lá.
De certa forma, o ovo também representa o povo judeu: quanto maiores as dificuldades, quanto mais quente a água, mais “duros” e resilientes nos tornamos.
ALMA: Não se conformar com o status quo e tomar uma posição é uma característica da liberdade.
USO: O ovo é comido no início da refeição.
MAROR
(alface romana com erva amarga)
CORPO: Ervas amargas, como raiz forte, alface, endívias ou uma mistura delas.
Isso nos faz recordar a amargura e aspereza da escravidão que nosso povo suportou no antigo Egito.
ALMA: A alface, folha amarga, nos ensina uma lição sobre escravidão e liberdade. As folhas de uma alface jovem e fresca são doces.
No entanto, a alface cresce a partir de um talo que é amargo.
As folhas frescas e doces representam a liberdade, e o caule amargo representa a escravidão.
A verdadeira liberdade é alcançada apenas com a superação de desafios.
USO: O maror será usado durante o sêder, antes do início da refeição.
CHAROSSET
(nozes moídas com frutas e vinho)
CORPO: O charosset nos lembra a argamassa utilizada para fazer os tijolos quando éramos escravos do faraó no Egito.
O charosset é uma mistura de frutas e nozes. As frutas usadas na mistura — maçãs, peras e tâmaras — são símbolos do povo judeu, carinhosamente referido na Bíblia por esses nomes.
ALMA: Quanto maior o desafio, mais doce a liberdade.
USO: Mergulhamos o maror no charosset.
CARPÁS (legumes)
CORPO: Cebola, batata ou aipo [ou salsão].
ALMA: A palavra hebraica “carpás”, quando lida de trás para frente, alude ao trabalho árduo realizado pelos 600.000 judeus no Egito.
USO: O carpás é usado logo no início do sêder.
CHAZERET
(alface romana com erva amarga)
CORPO: Folhas amargas como alface romana, endívia ou uma mistura delas.
USO: O chazeret é usado no sanduíche corech.
QUATRO TAÇAS DE VINHO
CORPO: Durante o sêder bebemos quatro taças de vinho em intervalos diferentes, começando com o kidush.
ALMA: O vinho simboliza a alegria na recepção da festa, a época de nossa liberdade.
O rei David proclama: “Eu ergo o cálice da salvação”. “O vinho”, diz o salmista, “alegra o coração”, e no decorrer da celebração de nossa redenção beberemos quatro taças de vinho.
As quatro taças celebram quatro estágios de redenção descritos nas quatro linguagens proferidas por D’us antes do Êxodo.
● A primeira taça — a remoção sica da terra do Egito — “Eu te libertarei”;
● a segunda taça — a libertação da escravidão intelectual e espiritual — “Eu te salvarei”;
●a terceira taça — a criação de um povo eternamente imune à escravidão permanente — “Eu te farei livre”;
● a quarta taça — a aceitação de D’us de Israel como Seu povo escolhido e a entrega da Torá no Sinai — “Eu te levarei até Mim como uma nação”.
As quatro taças são uma reminiscência dos quatro grandes méritos que os filhos de Israel tinham mesmo durante o exílio egípcio: eles mantiveram seus nomes hebraicos, mantiveram sua língua hebraica, permaneceram altamente fiéis à sua moral e leais uns aos outros.
As quatro taças de vinho representam as nossas matriarcas: Sara, Rebeca, Raquel e Léa.
USO: Cada uma das quatro taças deve ser grande o suficiente para conter, pelo menos, cerca de 100ml.
É melhor usar vinho, embora suco de uva (ou uma combinação dos dois) seja aceitável. A taça deve estar cheia até a borda, e, de preferência, deve-se beber a taça inteira ou pelo menos mais da metade.
Fonte: Artigo da Revista Celebração do Beit Chabad Morumbi
