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Felicidade do casamento

por Portal Legal Saber
FAMÍLIA E EDUCAÇÃO

Manual para a Felicidade no Casamento: Princípios Judaicos

Baseado nos ensinamentos do Rabino Y. David Weitman (ouça a aula nesta página)

 Introdução: Para Além dos “Contos de Fada”

O casamento judaico não é o “felizes para sempre” mágico dos contos infantis, mas uma instituição divina construída com consciência, esforço e dedicação mútua. Este guia apresenta os princípios essenciais para construir e manter a felicidade conjugal segundo a visão da Torá.

Parte 1: A Essência da Diferença e da Complementaridade

1.1 Homem e Mulher: Diferentes, Mas Iguais em Valor
Não há hierarquia de importância no judaísmo. Ambos têm igual valor, com funções distintas e complementares.
Nunca houve necessidade de movimentos de “libertação” na tradição judaica, pois a Torá sempre reconheceu a dignidade e os direitos da mulher.

1.2 Duas Formas de Servir a Deus: A Metáfora Mística
O Rabino David Weitman explica através da mística judaica:

| Homem | Mulher |
|———–|————|
| Modo “Agressivo” ou Ativo | Modo “Passivo” ou Receptivo |
| Sai ao mundo para transformar e elevar (לַעֲבוֹדָה – “la’avodá” – trabalhá-lo). | Preserva e protege a santidade existente (לִשְׁמֹרָה – “lishmorá” – guardá-lo). |
| Busca trazer novidade, espiritualidade e correção ao mundo exterior. | Mantém e nutre a santidade já presente no lar, na família e na tradição. |
| É como o soldado que sai para a guerra para defender o país. | É como a população civil que mantém a vida, a cultura e os valores pelo qual se luta. |

Conclusão prática: O sucesso do casamento começa ao entender que essas diferenças não são defeitos, mas peças de um quebra-cabeça divino. O conflito muitas vezes surge quando se espera que o cônjuge seja igual a si, em vez de complementar.

1.3 A Sensibilidade Espiritual Feminina
– A mulher possui uma sensibilidade embutida (“santidade embutida”) para perceber e proteger a essência espiritual.
– Exemplo bíblico: Sará (Sara) percebeu o perigo que Ismael representava para a educação de Isaac, enquanto Avraham (Abraão) hesitou. D’us ordenou: “Ouve a voz de Sará” (Gênesis 21:12).
– Exemplo moderno: A noiva que, sem conhecer a lei, sentiu que um determinado casamento era espiritualmente proibido.
– Aplicação: Valorizar a intuição e a percepção espiritual do cônjuge, especialmente em assuntos relacionados à família, educação e atmosfera do lar.

Parte 2: O Grande Modelo: O Casamento no Sinai

O relacionamento entre D’us e o Povo de Israel no Monte Sinai é o modelo arquetípico para o casamento humano. Dele extraímos três lições fundamentais.

2.1 Lição 1: Encontro de Dois Mundos, Não Anulação
D’us desceu à montanha (Êxodo 19:20). A espiritualidade judaica não exige a negação do mundo físico.
Aplicação no casamento: Não é necessário que um cônjuge anule sua personalidade, hobbies ou sonhos. O casamento é o encontro de duas identidades completas que escolhem caminhar juntas, não a fusão que destrói a individualidade.
– Princípio: “Cada um dá o máximo, mas cada um permanece sendo quem é.”

2.2 Lição 2: O Relacionamento é de Mão Dupla e Interdependência
– No Sinai, criou-se uma relação de interdependência sagrada: Israel depende de D’us, e D’us (em seu plano) “depende” das ações de Israel no mundo.
Aplicação no casamento: Deve ser uma “rua de mão dupla”. Ambos dão e recebem, ambos são responsáveis e ambos podem (com respeito) expressar necessidades e expectativas.
História do Talmud: Os sábios decretaram uma lei contrariando até uma “voz celeste”, e D’us se alegrou por ter sido “vencido” por Seus filhos. Isso mostra a dignidade e a autonomia concedida no relacionamento.
– Princípio: O casal forma uma equipe onde ambos têm voz e responsabilidade.

2.3 Lição 3: O Conhecimento Vem com o Tempo
– Após o “casamento” no Sinai, o povo passou 40 anos no deserto conhecendo D’us (Seus milagres, Sua paciência) e sendo conhecido (suas queixas, sua fé).
– Aplicação no casamento: É uma ilusão perigosa acreditar que se conhece plenamente o cônjuge antes ou logo após o casamento.
O verdadeiro conhecimento se constrói no dia a dia, através das reações ao stress, à alegria, às dificuldades financeiras, à educação dos filhos.
– Conselho prático: Tenha paciência. O amor se aprofunda com o conhecimento mútuo que só o tempo e a convivência concedem. Não desista nas primeiras desilusões ou descobertas.

Parte 3: Os Ingredientes Práticos para a Paz no Lar (Shalom Bayit)

3.1 A Mentalidade Correta: “Duas Metades que se Reencontram”
– A Torá descreve a criação da mulher da “costela” do homem (Gênesis 2:21-24). Os sábios explicam: originalmente eram uma só alma/entidade, depois separadas.
O casamento é o reencontro dessas duas metades.
– Consequência prática radical: Quando se vê o cônjuge como a “outra metade“, não existem mais “funções que não são comigo”. Lavar louça, sustentar a casa, cuidar dos filhos – tudo é “comigo“, porque o bem-estar da unidade (o “nós”) é prioridade.
– Contraste com a visão moderna: Muitos encaram o casamento como um “contrato social” onde cada um tem suas cláusulas e limites rígidos (“isso é comigo, aquilo é com você”). Isso leva ao distanciamento.
– Exemplo inspirador: Avital Sharansky lutou por 9 anos para libertar o marido, com quem viveu apenas um dia após o casamento. Ela agiu com a dedicação de quem recupera uma parte perdida de si mesma.

3.2 Jogando no Mesmo Time
– Erro comum: Em situações sociais ou de conflito, aliar-se a terceiros contra o cônjuge. Criticar o marido para as amigas, ou ridicularizar a esposa na frente de estranhos.
– Regra de ouro: Em público e principalmente nas dificuldades, lembre-se de que você e seu cônjuge são um time. A defesa e o respeito mútuos são inegociáveis.
– Pergunta corretiva: Antes de criticar seu cônjuge para outros, pense: “Estou jogando no time dele/ela ou no time dos outros?”

3.3 O Amor é Como o Fogo (e Isso é Bom)
– A Cabalá descreve dois tipos de amor:
1. Água: Amor tranquilo e constante, como entre pais e filhos ou irmãos (que compartilham origem e criação).
2. Fogo: Amor do casal. A chama vibra, sobe e desce. Por quê? Porque marido e mulher vêm de mundos diferentes e precisam “pular sobre o abismo” de suas diferenças a todo momento.
– Aplicação consoladora: Os altos e baixos, as fases de maior ou menor conexão, são normais e intrínsecos ao amor conjugal. Não significam que o amor acabou, mas que ele é dinâmico e vivo.

3.4 A Paz no Lar é a Prioridade Máxima
– Ensinamento radical: Para fazer as pazes entre um casal suspeito de infidelidade, a Torá ordenava um ritual onde o Nome sagrado de D’us era apagado na água que a esposa bebia (Números 5:23).
– Mensagem: Se para manter a paz conjugal (Shalom Bayit) D’us permite que Seu Nome seja apagado, não há orgulho, rancor ou “razão” pessoal que valha mais do que a harmonia do lar.
– História do Talmud: A mulher que, por um mal-entendido linguístico, jogou velas na cabeça do sábio Bava ben Buta. Ele, compreendendo a dinâmica do casal e seu desejo de agradar, abençoou-a em vez de repreendê-la. A paz e a intenção boa foram valorizadas acima do incidente.

Parte 4: A “Terapia Prática” Judaica: Ação, Não Apenas Sentimento

4.1 O Mandamento é Agir
– A Torá não diz “Sinta amor pelo próximo” ou “Espere que seus pais sejam honráveis”. Ela ordena: “Ame o próximo” e “Honre pai e mãe”.
– Filosofia prática: Os sentimentos seguem as ações. Não espere “sentir” mais amor para agir com amor. Aja com amor, e o sentimento se fortalecerá.
– No casamento: Não pergunte “Ele(a) me ama no fundo do coração?”. Observe e pratique: “Nós agimos com amor e respeito mútuo?”

4.2 Comece por Você: O Círculo Virtuoso
– Conselho do Rambam (Maimônides): A esposa deve tratar o marido como um rei. O marido deve tratar a esposa como uma rainha.
– Objeção comum: “Mas ele/ela não age como um rei/rainha!”
– Resposta judaica: Comece a tratá-lo(a) como tal. O respeito e a dignidade concedidos geram um círculo virtuoso que eleva a autoestima e o comportamento do cônjuge.
– Não é hipocrisia, é construção. Você está construindo a realidade que deseja, tijolo por tijolo (ou gesto por gesto).

4.3 O Conselho do Lubavitcher Rebbe: Simplicidade que Transforma
– Caso real: Uma moça com dificuldades de relacionamento pede conselho ao Rebe.
– Ela esperava: Uma explicação cabalística sobre reencarnações e almas gêmeas.
– O Rebe prescreveu: “Na cafeteria da faculdade, levante-se e sirva café e açúcar aos colegas.”
– A lição (que ela posteriormente entendeu): A transformação não começa com insights complexos, mas com ações concretas de generosidade e saída de si mesma.
– Para o casal: Em vez de longas análises sobre a relação, faça algo bom, simples e concreto pelo cônjuge hoje. Prepare um chá, elogie, assuma uma tarefa, ouça sem interromper. A ação pratica o caminho para o sentimento.

Conclusão: Felizes para Sempre, à Maneira Judaica

A felicidade no casamento judaico não é um conto de fadas isento de problemas. É uma construção diária baseada em:

1. Consciência das diferenças complementares.
2. Modelo do casamento divino no Sinai (interdependência, paciência, respeito à individualidade).
3. Mentalidade de “metades reunidas” e “jogando no mesmo time”.
4. Prioridade absoluta da paz no lar (Shalom Bayit).
5. Ação prática constante, onde o amor e o respeito são verbos ativos.

Bênção final: Que o mesmo D’us que uniu duas metades no Éden e selou um pacto de amor no Sinai, abençoe todos os lares com Shalom Bayit – a paz que é a fonte de toda a felicidade verdadeira.

Hashem oz l’amo yiten, Hashem yevarech et amo vashalom.
Que o Senhor dê força ao Seu povo, que o Senhor abençoe o Seu povo com a paz.” (Salmos 29:11)

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