É Legal Saber que o voluntariado no judaísmo começou lá atrás, com Avraham Avínu.

Avraham Avinu, o grande sábio, o primeiro voluntário de nossa história, “plantou um Eshel em Beer Sheva”, assim diz a Torá.

O que é um Eshel? Alguns dizem que era uma árvore. Porém o Talmud chega a conclusão de que as três letras significam: achilá – comida, shetiá – bebida e liná – pernoite.

Assim, Avraham Avínu abriu uma hospedaria, um albergue. Na realidade, era um lugar onde os pobres e os viajantes pudessem matar a sua fome, saciar a sua sede e dormir.

Avraham Avínu foi um homem que iniciou incríveis atos de bondade e altruísmo. Dizem os nossos sábios que a “bondade celestial” ficou com inveja do coração tão grande deste homem.

A tenda de Avraham estava sempre aberta em seus quatro cantos, para que os viajantes e hóspedes não precisassem procurar pela porta, e assim entrar facilmente e receber o melhor possível. Nessa disposição de nosso patriarca já repousa a semente do voluntariado no judaísmo, a sua importância cabal.

Avraham Avínu é um exemplo que nos ensina muitas coisas. Mesmo estando doente, no terceiro dia de sua circuncisão, ele estava do lado de fora de sua tenda. Estava então sob o sol quente, esperando que passasse alguém para que ele pudesse “doar”.

Porque, no fundo, Avraham acreditava que a única forma de haver um equilíbrio na sociedade era “doando”. Porque na verdade quem “dá”, sem dúvida, recebe.

A contraparte da bondade

Paralelamente, na mesma época em que Avraham Avínu vivia em “Beer Sheva”, havia uma outra cidade chamada “Sodoma”, onde prevalecia o contrário do altruísmo — o egoísmo.

Em Sodoma, era, pois, proibido receber convidados. Portanto, se uma pessoa servia alguém que não fosse da família, cometia um crime passível de morte.

Como era proibido receber as pessoas nas casas, havia uma hospedaria. Contam os nossos sábios que, quando chegava um hóspede, se ele fosse grande demais para a cama, cortavam-lhe os pés; se fosse pequeno demais, esticavam-lhe as pernas para chegar na medida da lei vigente em Sodoma.

Esse paralelo, o então contraste entre a cidade benevolente de “Beer Sheva” e a egocêntrica “Sodoma”, continua existindo, infelizmente.

A sociedade inteira ainda não se convenceu da grandeza do terceiro setor, da beleza e do equilíbrio fantástico, onde uns dão e os outros recebem.

E na verdade, todos acabam dando e recebendo. Essa é a essência, certamente, do voluntariado no judaísmo.

Destaque para a sagrada Torá

Há um ponto interessante na Torá, quando ela trata das leis de benevolência e de assistência social. Acontece que todas as palavras estão no singular, nunca no plural: “tu não fecharás a tua mão”, “abre a tua mão”, “não feches o teu coração”.

Nossos sábios dão a seguinte explicação: mesmo que você more em um lugar onde o governo, a sociedade e as autoridades não cumprem com o seu dever, você, como indivíduo, precisa continuar com as suas obrigações, pois não está isento e não deve ser omisso. “Da tua carne não te omitas”, e a tua carne são os teus irmãos.

Graças a D’us, a sociedade civil está formando parcerias com o governo; muito se ouve falar sobre o terceiro setor e vamos ouvir ainda mais.

Mas a Torá já nos ensinou, 3.300 anos atrás, que ninguém está isento destas obrigações. Todos têm a obrigação da tsedaká. Até mesmo um pobre pode também dar um abraço tipicamente brasileiro, caloroso, aquele sentimento que é muito importante para qualquer pessoa.

D’us não fica devedor para um tipo de trabalho como esse. Vocês, voluntários, podem ter certeza de que cada ato, cada mão estendida, cada sorriso, cada ajuda, cada amparo estão registrados com todas as outras mitsvot.

O amor do voluntariado no judaísmo começa com Avraham Avinu

Tudo o que as instituições beneficentes fazem, entretanto, não seria possível se não somássemos o coração generoso de cada voluntário. É uma educação que vem de berço a berço, até chegarmos em Avraham Avínu.

Juntando tudo isso, nasce pois um tesouro fabuloso que não se perderá e jamais será confiscado. Esta genuína bondade, este altruísmo que herdamos de Avraham Avínu, não há governo no mundo que possa confiscar.

Se ocorrerem guerras, enchentes, trovões, terremotos, se tivermos de mudar de país, tenham a certeza de que carregaremos nossas instituições conosco. Levamos em nossa bagagem cultural e história o espírito de ajudar, o verdadeiro espírito que há do voluntariado no judaísmo.

No Gueto de Varsóvia tínhamos as nossas instituições; nos porões da inquisição também, e até nos 70 anos de comunismo na Rússia existiam, de forma clandestina, os então chamados fundos de ajuda.

A união faz a força

Tudo isso permaneceu conosco. Por quê? Porque juntamos esforços e somamos. Estamos aqui portanto para nos unir. Aqueles que enfim se juntam, se unem, fazem parte do povo que Maimônides descreve de maneira inequívoca no século XII: “…Nunca encontrei, nunca ouvi e nem vi uma comunidade de Israel que não tenha o seu fundo de ajuda para os mais humildes. Isto não existe, não é possível…”

Os voluntários dedicam sua força, energia e tempo, e como dizia o Rebe de Lubavitch: “Tempo é vida”, contrariando todos os que dizem “Time is Money” (tempo é dinheiro).

“Tempo é vida”, e os voluntários são aqueles que dão sua vida. Dão igualmente o seu sangue, tirando um pouco do tempo em que estariam com suas famílias para ajudar as pessoas que precisam. E D’us, lá em cima, o Todo-Poderoso, sem dúvida abençoará cada um de vocês, voluntários. Isto para que continuem este trabalho com bastante saúde e para que seus filhos vejam isto e emulem o que vocês fazem.

(Publicado na Revista da FISESP em 1997)

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