O Todo-Poderoso D’us fez questão que existissem pobres e ricos no mundo, um precisando do outro para praticar a bondade e a caridade, ou seja, a tsedacá.

D’us, portanto, fez questão que neste mundo haja uma interação entre mashpia e mecabel — doador e receptor (ver Midrash Shemot Rabá 31:6, Tanchuma Terumá 9, Maamar Tiku 5668).

Tudo pertence a D’us então. Quando estendemos a mão para ajudar um necessitado, seja um pobre ou uma instituição, não estamos lhes fazendo um favor.

A filosofia judaica nos ensina que D’us retém os bens que seriam dos pobres e os entrega nas mãos dos ricos. Seria como então “oportunizar” a que o rico faça uma boa ação (Orach Chaim, Êxodo 22:24; Alshich, Provérbios 18:16; Maamarim Kuntressim, vol. 1, p. 119a).

Então, na realidade, em primeiro lugar, quando um homem rico e afortunado, dá algo para um pobre, ele está apenas devolvendo o que não era seu. Trata-se, portanto, de uma noção de caridade bastante diferente da que vemos adotada pelo mundo hoje. Podemos ler diretamente do Midrash: “Mais do que o rico faz para o pobre, o pobre faz pelo rico” (Vayicrá Rabá, porção 34). O pobre permite que o rico devolva seu achado.

Teoricamente, ao fazermos tsedacá, deveríamos falar “muito obrigado” para o pobre. Agradecer-lhe pelo simples fato de ele aceitar a caridade. É que, sob essa ótica, o rico apenas estará restituindo algo que de fato nunca pertenceu a ele, mas tão somente ao pobre.

A Tsedacá é uma mitsvá muito especial

Nessa linha de pensamento, o rico é o “fiel depositário”, o que significa que D’us deposita dinheiro para as pessoas nas quais Ele confia, para que estas, por sua vez, entreguem a quem necessita. Se o fiel depositário faz tsedacá, consequentemente, D’us lhe manda mais dinheiro.

Mas se ele não pratica a bondade e não reparte com os outros, provavelmente não é um bom depositário. Assim pode fazer com que D’us deixe de confiar nele e pare de fazer os depósitos (Meil Tsedacá A 437; A 595).

Convém reafirmar: quando damos, estamos na realidade apenas devolvendo ao pobre aquilo que é seu de direito. Os Sábios comparam o ato de dar tsedacá a um filho que distribui os bens de seu pai.

Quando enxergamos a tsedacá sob esta ótica, resultam dois efeitos muito positivos e vantajosos. O primeiro é que o rico não se orgulhará de sua fortuna e posição. Consequentemente, pois, não cairá em vaidade e arrogância. Ele sabe que D’us está lhe depositando um dinheiro que não é somente seu.

O segundo grande efeito é que o pobre não ficará constrangido em receber, já que aquela doação não está diminuindo do que é nosso; acontece simplesmente que D’us deixou aquele dinheiro, que pertence ao pobre, depositado com outra pessoa por um tempo. Dessa forma, retiramos a vergonha do necessitado e comprovamos o quanto a perspectiva judaica sobre o assunto é singular, levando à construção de uma sociedade mais elevada e justa.

Passando no teste Divino

Cabe sublinhar portanto que a única mitsvá que D’us permite usar para testá-Lo é a tsedacá. Disse D’us que jamais alguém empobreceu por dar tsedacá. “Podem Me testar com isso”, disse o Profeta (Malaquias 3:10). E continua: “Eu vou lhes abrir as janelas do céu e lhes darei bênçãos até você dizerem basta”.

Os nossos Sábios (Shabat 32b) adicionam: “Até que seus lábios se cansem de falar basta”. Ou ainda: “Dê o dízimo que assim irás enriquecer”, garantem nossos Sábios (Taanit 9a, Shabat 119a). No Talmud (Baba Batra 9b): “Todo aquele que costuma praticar a tsedacá terá filhos sábios, prósperos e honrados”.

(Extraído do prefácio do livro Leis de Tsedacá e Maasser, Editora Maayanot, S.Paulo)

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* Imagem por anaterate licenciada sob CC BY-NC-SA

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