Vamos comentar um pouco sobre uma figura importante que ficou muito tempo aqui no Brasil colonial em Recife chamada Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar.

Estou me referindo ao Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar. Ele não é tão conhecido como o Rabino Isaac Aboab da Fonseca que era o Rabino-Chefe de Recife e que mais tarde, em 1654, depois da capitulação, voltou para Amsterdã e se tornou o Rabino Mor na comunidade hispano-portuguesa de Amsterdã.

Foi o Rabino Aboab quem incentivou a construção da grande sinagoga portuguesa de Amsterdã, como todos conhecem, foi muito famoso, escreveu vários livros, realmente uma figura especial, abordada intensamente em nosso livro “Bandeirantes Espirituais do Brasil”.

Rabino Isaac Aboab da Fonseca foi um homem extraordinário que falava dez idiomas, era músico, poeta, exegeta, filósofo e cabalista, pois entendia perfeitamente a parte esotérica e profunda da Torá.

Enfim, um homem extremamente erudito e um grande líder do povo de Israel. Em sua lápide tumular está escrito: “ele liderou por 70 anos sua comunidade”.

Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar – indo além do chazan

Todavia ele não foi o único rabino em Recife. Houve vários sábios na comunidade de Recife.

Eles vieram em massa para o Brasil-Holanda no ano de 1642 provindos de Amsterdã.

Já havia judeus oficialmente no Brasil desde 1630 (antes havia cripto-judeus abaixo do domínio português). Todavia é apenas a partir de 1642 que a comunidade pois se organiza.

Junto com o Rabino Isaac da Fonseca veio o Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar. Este também foi uma figura muito importante nesse cenário.

Mesmo que alguns historiadores tendem a dizer que ele era apenas o chazan (cantor e condutor das rezas) em Recife e não se destacava tanto, mas essa conclusão errônea se deve ao fato de eles não verem seu nome nas atas da comunidade Tsur Israel de Recife, que se conservaram desde aquela época e que hoje já foram publicadas.

Registros históricos

Lá consta o salário de todos os funcionários comunitários. Assim vamos encontrar o shochet (magarefe), o professor e o próprio Rabino Isaac Aboab, e estranhamente não aparece o nome de Rabino Mosseh d’Aguilar.

Mas este argumento não tem fundamento, porque havia duas sinagogas em Recife. Alguns historiadores dizem que havia 5.000 judeus na comunidade – o que para mim é um pouco exagerado –, mas sem dúvida havia bastante ao ponto de justificar a existência de duas sinagogas.

Uma parte ficou em Recife e a outra, em Antônio Vaz, também chamada de S. Antônio ou Maurícia, hoje ligada através de uma ponte.

Mas naquela época não havia a possibilidade de ir de um lado ao outro no Shabat, pois precisava de um barco. Por isso a comunidade de Tsur Israel deu a permissão para construir uma segunda sinagoga naquela cidade vizinha.

A Sinagoga se chamava Maguen Avraham, e o Rabino daquela Sinagoga era justamente Mosseh Rephael d’Aguilar, e por isto não figura no quadro de funcionários da Tsur Israel.

Tomando parte do Tribunal Rabínico

Se você analisar os livros dos historiadores, verá que ele veio especialmente para o Brasil com esse propósito. David Franco Mendes escreve em seu livro de memórias que cada um já era recebido por suas comunidades e logo trabalhando com sua congregação.

Apesar de ter vivido muito tempo na sombra de Rabino Isaac Aboab, Rabino Mosseh Rephael foi uma pessoa muito especial e muito erudita, tanto é que acabou entrando e fazendo parte do Tribunal Rabínico da comunidade Talmud Torá em Amsterdã.

Não sabemos ao certo o local de seu nascimento, mas fica entre Portugal e Amsterdã. Com certeza ele foi educado e adquiriu sua vasta cultura em Amsterdã, tanto em Judaísmo como em cultura geral.

Ele sabia grego e latim perfeitamente, filosofia, escreveu tratados de retórica.

Supõe-se que ele nasceu por volta de 1615, e em 1639 já era Rabino.

Sabemos isso de sua lápide tumular, que se encontra no cemitério judaico de Amsterdã, onde está escrito “ele liderou a comunidade por 40 anos”.

Se ele faleceu em 1679, significa que 40 anos antes já era Rabino.

Em 1637 o encontramos ainda como aluno da escola Ets Chayim, em Amsterdã.

Em 1640 já encontramos suas obras de refutação das teorias do herege Uriel da Costa, que escreveu várias propostas contra a tradição judaica. Na ocasião, o jovem Mosseh Rephael refutou com muita maestria as suas teorias.

Sua descendência e trajetória

Aparentemente ele descende de uma família mais humilde do que a de Rabino Isaac Aboab. Tanto que consta que ele recebia um subsídio da comunidade (que era bastante organizada) para custear os seus estudos.

Aquele que idealizou essa comunidade que abrigou os judeus de Portugal e Espanha era o Rabino Shaul Levi Morteira.

Havia um fundo chamado Haspacá, que servia justamente para custear os estudos de Torá de famílias mais carentes.

Em 1642 ele embarca para o Brasil no mesmo navio de Rabino Isaac da Fonseca.

No Brasil, Rabino Mosseh Rephael teve uma atuação muito significativa até a reconquista do Brasil pelos portugueses.

Posições estratégicas do Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar

Após a capitulação de 1654, poucos fugiram para o sertão, outros para as Guianas, mas a maior parte da comunidade judaica voltou com seus pertences para a Holanda em 23 navios.

Dois desses navios foram capturados por piratas e levados para a Jamaica. Uma vez liberados, avançaram em direção ao norte, para Nova Amsterdã, fundando a primeira comunidade judaica de Nova York.

De volta a Amsterdã, em 1660, faleceu o Rabino Shaul Levi Morteira, e no ano seguinte Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar é chamado para integrar o Tribunal Rabínico, presidido pelo Rabino Isaac Aboab da Fonseca.

Além disso, tornou-se professor de Talmud na Yeshivá, recebendo salário de 400 florins por ano.

Ele possuía um hebraico perfeito e falava com seus alunos somente nesse idioma.

Ele foi um grande filólogo, compondo vários poemas e poesias em hebraico, bem como um livro de gramática hebraica.

Os próprios Sábios de Amsterdã pediram para Rabino Mosseh Rephael dar aula de retórica para os jovens estudantes da Yeshivá e ensiná-los a falar em público sobre a porção semanal a cada Shabat.

Mitsvot e reconhecimento

Ele também se destacou em trazer de volta os judeus marranos perdidos e que ainda não reingressaram para o seu Judaísmo. Por isso mantinha correspondência intensa com eles, para aproximá-los de volta ao seu patrimônio espiritual.

Existem manuscritos de d’Aguilar de mais de 1.000 páginas, e muitos ainda não foram publicados. Encontramos correspondência com esses cripto-judeus que viviam na França, em Bordeaux, e em Baiona, na Bélgica, na Antuérpia e em Hamburgo, para assim dirimir suas dúvidas.

Sem dúvida nenhuma, Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar desempenhou uma função de extrema importância, e sua luz brilhou principalmente em Amsterdã.

Uma das provas para saber se alguém foi um grande sábio, é saber se ele aprovou uma obra judaica. O costume judaico é que, quando se escreve um livro judaico de autoria própria, pede-se aprovação de sábios maiores e ilustres, o que chamamos em hebraico hascamá.

Estatura espiritual

Essa aprovação mostra que o autor tem o conhecimento e a erudição necessários. Possui temor a D’us e é digno de escrever uma obra de valor.

Amsterdã foi naquela época um grande centro de impressão de livros judaicos. Isso inclui a primeira gráfica judaica da cidade pertencia ao Rabino Menashe ben Israel.

Muitos grandes rabinos, inclusive da Europa oriental, como Polônia, Tchecolosváquia e Alemanha, bem como grandes sábios sefaraditas, portugueses e espanhóis, vinham até Amsterdã para imprimir seus livros e receber aprovação dos rabinos.

Entre os sábios que davam frequentemente sua aprovação para esses livros estavam os Rabinos Isaac Aboab da Fonseca e Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar. Daí nós vemos o grande gabarito intelectual que primam esses dois Rabinos. Inclusive grandes sábios da Polônia, como Rabino Isaac de Poznan, que fazia parte do Conselho dos Quatro Países, escreve palavras maravilhosas a respeito destes grandes vultos.

Curiosidade da vida de d’Aguilar

Outra prova é que a biblioteca de d’Aguilar foi doada depois de ele ter falecido. Talvez porque a família precisava de dinheiro. Na ocasião, fizeram um levantamento dos livros que ele possuía e de um catálogo. Este abrangia todos os assuntos judaicos: Halachá, Agadá, Talmud, Filosofia, Cabalá, etc..Sua biblioteca leiga incluía livros gregos, romanos e em latim. Incrível!

Havia um grande sábio tcheco que escreveu o livro Siftei Yeshenim (Rav Meshorer Bass). É pois uma curta biografia e bibliografia sobre vários sábios judeus e suas obras.

Ele conta no prefácio de seu livro que sentiu dificuldades em encontrar livros raros judaicos para sua pesquisa. Entretanto, quando chegou a Amsterdã, na casa do Rabino Mosseh d’Aguilar, ele generosamente abriu as portas de sua biblioteca. Assim, foi-lhe permitido que ele fizesse a pesquisa. Com efeito, enfim, ele achou o que estava procurando.

Apesar de não ser muito conhecido, porque cuidava daquela sinagoga menor em Recife, mas até o seu último dia de vida ele lecionou Talmud na Academia Talmúdica em Amsterdã.

Outro fato interessante é que Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar era tio de uma personalidade importante para o Brasil. Um jovem mancebo chamado Isaac de Castro. Rabino d’Aguilar tinha uma irmã chamada Isabela de Pas. Ela era então casada com um homem da família de Castro, e teve dois filhos: Isaac e David.

Eles também são conhecidos por Tartaz, uma cidade no sul da França, na Provença. Desse lugar são oriundos muitos dos cripto-judeus que fugiram de Portugal e Espanha. Assim, pois, eles se refugiaram certo tempo naquela região.

Erudição em vários idiomas

David de Castro possuía uma gráfica muito importante em Amsterdã, e muitos livros foram impressos lá.

Seu irmão Isaac veio no mesmo navio que seu tio para o Brasil, em 1642.

Naquela época Isaac contava 18 ou 19 anos e já era bastante erudito. Conhecia portanto a Torá e o hebraico, além de outros idiomas, como francês, português e holandês, tais como os outros judeus daquela época.

Ele não permaneceu em Recife e foi direto para Salvador, para ensinar Torá aos cristãos novos. Estes pois eram os judeus marranos que ainda não tinham regressado para sua religião original. Existem relatos de que havia também judeus na Paraíba.

Como sabemos, a Inquisição já naquela época atuava não apenas na Península Ibérica, mas também no Brasil. Por isso os inquisidores o prenderam e o levaram para Lisboa.

Ficou detido cerca de dois anos na prisão, tentando fazer com que ele reconhecesse e aceitasse a fé católica. Contudo, ele se manteve firme em suas convicções, que jamais iria abandonar a fé de seus pais.

Seu processo está arquivado junto com outros 22.000 na Torre do Tombo, em Lisboa.

O professor Elias Lipiner conseguiu os arquivos e os imprimiu sob o título “O mancebo que veio do Brasil”.

O fim trágico de Isaac de Castro

O final da história de Isaac de Castro é enfim extremamente impressionante, como consta em livros de historiadores não-judeus.

A igreja o matou em 1647, tendo então apenas 22 ou 23 anos.

Conforme a lei da Inquisição, todos aqueles que não aceitavam mudar de religião eram queimados vivos diante de muitos clérigos que compareciam a esses Autos da Fé.

A fogueira foi acesa, e os historiadores contam que após duas ou três horas em meio às chamas ouviu-se um berro tão forte exclamando “Shemá Israel” (a reza máxima judaica, afirmando a Unicidade do Criador), que todos se impressionaram.

Assim ele morreu e devolveu sua alma ao Criador.

A igreja se assustou tanto com esse episódio, que durante meses cancelou as execuções.

Esse mártir era sobrinho de Mosseh Rephael d’Aguilar, filho de sua irmã.

Várias obras e discursos fúnebres foram feitos em sua homenagem, em Amsterdã. Seu próprio irmão David menciona em várias obras o trágico falecimento de seu irmão e como ele santificou o nome de D’us.

Lugar de origem do Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar

O que nos interessa nesse momento então é saber donde Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar é oriundo.

Os historiadores não chegaram pois a uma conclusão definitiva.

Por exemplo, o famoso pesquisador Kaplan escreve que ele foi educado em Amsterdã, apesar de que ele poderia ter nascido em outro lugar, como Portugal, e chegado cedo em Amsterdã.

Outro historiador que escreveu vários livros, chamado Salomon, diz que provavelmente ele deve ter sido educado em Portugal. Isto porque ele escreve suas obras num então português perfeito, na ortografia da época. Assim, conclui,  deve ter estudado na academia de Coimbra e Beira Douro.

Dificilmente então aprenderia a escrever tão corretamente em Amsterdã. O nome Aguilar nos remete às localidades portuguesas, como Trás-Os-Montes.

Daquela região saíram pois várias levas de marranos. Porém, isso ainda não é prova de onde ele é oriundo em particular, pois pode ser que seu ancestral ou bisavô era de lá, ou adotou para si esse nome.

O sobrenome igual a uma região não é prova de que ele é oriundo geograficamente daquele local.

Solução para o enigma

Humildemente me parece que talvez achamos uma solução para esse enigma. Havia um costume interessante nas gráficas judaicas: em quase todo livro que era impresso, o tipógrafo colocava seu nome (e eventualmente o de seu pai) no fim do livro, para ficar com o mérito de ter imprimido o livro sagrado de um grande sábio.

Em alguns livros impressos em Amsterdã, naquela época, encontramos no final o tipógrafo escrever: “[impresso] por mim, obrando nesta sagrada tarefa, Jacob, filho de Rabino Moshé Rafael de Córdoba de abençoada e justa memória, hachacham hashalem (o sábio perfeito) cabalista, da comunidade do Brasil”.

Encontrei essas palavras em vários livros . Porém, após uma análise de todas as atas, todos os estatutos e assinaturas, não encontrei outro sábio com o título “sábio perfeito” que se chamasse Mosseh Rephael, a não ser um que é o Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar.

Assim me parece que encontramos uma solução para o que os historiadores e pesquisadores se depararam: o lugar de nascimento do Rabino d’Aguilar.

Rabino Mosseh Rephael d’Aguilar não é oriundo nem de Portugal e nem de Amsterdã, mas nasceu em Córdoba, na Espanha.

(Publicado na Revista Arquivo Histórico Judaico Brasileiro em 2010)

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