Oriundo da cidade de Antuérpia, na Bélgica, o rabino David Weitman viveu sua infância e juventude lá.

“É uma cidade muito judaica”, diz.

Seus pais sempre foram muito religiosos, mas não rabinos. Assim, ele teve uma educação judaica e também pluralista.

O rabino David Weitman estudou em Yeshivot em Israel e na França e formou-se rabino e juiz nos Estados Unidos.

TRIBUNA JUDAICA: COMO O SENHOR VEIO PARAR NO BRASIL? QUAL ERA A MISSÃO PRÉ-ESTABELECIDA NA SUA VINDA?

Rabino David Weitman: Cheguei ao Brasil em maio de 1979. Foi então na ocasião em que o rabino Shabsi Alpern procurava alguém para trabalhar no Beit Chabad e, por indicação e bênção do Rebe de Lubavitch, vim parar aqui.

Minha missão era trabalhar com a juventude de um modo geral (solteiros e casados), pois já tinha experiência neste segmento e, por ter fluência no idioma francês, trabalhar também com a comunidade sefaradi.

TJ: COMO SURGIU A IDEIA DE FUNDAR O BEIT CHABAD DO MORUMBI? QUAL É A SENSAÇÃO APÓS DEZ ANOS DE SUCESSO DO RABINO DAVID WEITMAN?

Rabino David Weitman: Depois de me dedicar mais de dez anos ao trabalho com crianças e jovens na região dos Jardins e, aproveitando a expansão do Movimento Chabad, tentei vestir de idealismo e com a ajuda de amigos inauguramos uma nova sinagoga em um bairro conhecido por abrigar pessoas distantes da religião.

Hoje, esta sinagoga tornou-se um centro ativo, apesar de que espiritualmente o ser humano nunca pode se contentar com o que fez.

O Beit Chabad do Morumbi é hoje um centro de Judaísmo com sinagoga, escola, palestras, aulas, atividades para jovens, etc. Em suma, é mais um foco de Judaísmo na Zona Sul.

TJ: COMO É O TRABALHO DE UM RABINO ASQUENAZI EM UMA CONGREGAÇÃO 100% SEFARADI (CONGREGAÇÃO E BENEFICÊNCIA SEFARDI PAULISTA)?

Rabino David Weitman: Não tenho nenhum preconceito. Inclusive, o avô do primeiro Rebe de Lubavitch era originário de Portugal e sefaradi.

Conforme o Rebe nos ensinou, temos que amar a todos os judeus sem distinção de origem e tento aplicar isto em minha vida.

Fui muito bem recebido e existe um respeito mútuo; não tento mudar os costumes de ninguém. Minha missão é ensinar o Judaísmo e suas belezas. Esta ponte que estou tentando estabelecer entre as comunidades asquenazis e sefaradis, Enfim, acho importante para a integração do nosso ishuv.

TJ: QUAIS AS MAIORES DIFICULDADES E AS MAIORES ALEGRIAS NO OFÍCIO DE UM RABINO?

Rabino David Weitman: A maior dificuldade é, principalmente, ter um ouvido atento. É preciso, pois, escutar os problemas de nossos irmãos e correligionários a fim de tentar esclarecê-los.

Algumas vezes, temos que ouvir problemas bastante amargos, difíceis. Assim temos que aprender a conviver com isso, já que nem sempre podemos resolvê-los.

A grande alegria é quando conseguimos “descascar o abacaxi” e ajudar alguém a solucionar seus problemas.

TJ: COMO ESTÁ O MOVIMENTO LUBAVITCH SEM A PRESENÇA FÍSICA DE SEU LÍDER?

Rabino David Weitman: Existem dois aspectos nesta pergunta — os chassidim e o movimento.

Os chassidim estão em uma situação difícil, nos sentimos órfãos pela falta de contato físico com nosso líder, mas por outro lado, o Movimento está em um processo de expansão fantástica, já que o Rebe deixou bem claro quais eram as diretrizes em mais de 120 obras impressas.

Fico espantado em ver como as coisas vão se ampliando e crescendo. No ano passado, mais de duzentos casais saíram de schlichut para abrir novos centros em cidades das mais remotas como Xangai (China), Alasca (Estados Unidos), cidades da ex-União Soviética, onde existem 53 Beit Chabad, América Latina, etc.

O espírito chassídico continua com toda a força, todo o vigor, talvez mais que antes.

TJ: O MOVIMENTO LUBAVITCH VEM CRESCENDO AO REDOR DO MUNDO E, AO MESMO TEMPO, RECEBE MUITAS CRÍTICAS POR SEU POSICIONAMENTO A RESPEITO DA VINDA DO MASHIACH. QUAL É A ARGUMENTAÇÃO PARA ESTE TEMA?

Rabino David Weitman: O Movimento Lubavitch fala muito de Mashiach e fez muito para preparar o caminho para a sua vinda.

O Rebe disse que estamos prontos para recebê-lo, já que todos os sinais descritos em nossos livros já foram preenchidos.

Existem pessoas que não gostam de abordar este tema, parecendo, inclusive que o Mashiach não faz parte do Judaísmo. Isto é uma grande ignorância.

Falar de Judaísmo sem falar de Mashiach é o mesmo que falar da General Motors sem mencionar carros, ou da Coca-Cola sem falar em refrigerante.

O objetivo de D’us na criação do universo é chegar a um mundo melhor e à época messiânica.

Tive uma triste experiência há vinte anos, quando conheci uma moça judia egípcia.

Esta moça acabou se convertendo ao catolicismo, influenciada por um missionário e, de tão fervorosa que se tomou, acabou se casando com este missionário e indo morar em Jerusalém para catequizar mais judeus.

Em uma das conversas, perguntei a causa do afastamento dela do Judaísmo e a conversão ao catolicismo.

Ela me respondeu que gostou dos ideais que falaram para ela sobre o Messias, de uma era de paz no mundo e harmonia universal.

Com efeito, eu disse a ela que tudo isto estava escrito nos nossos livros e ela me confessou que nunca ninguém havia falado isto para ela.

Isto mostra como é grave omitir este assunto. Assim como o Movimento Lubavitch foi pioneiro em muitas coisas e, hoje, com o passar dos anos, muitos copiam suas atividades, não tenho dúvidas que todos estes críticos, em pouco tempo, também falarão de Mashiach.

TJ: COMO FOI SUA VISITA AO PRIMEIRO MICVE DAS AMÉRICAS, SITUADO NO RECIFE E DESCOBERTO HÁ POUCO TEMPO?

Rabino David Weitman: Foi algo muito emocionante poder rezar em um local onde há 350 anos isto não se fazia.

Em Recife, havia uma sinagoga, com uma comunidade organizada com seus rabinos, professores, shochet e com uma Yeshivá naquela época e renovar nossas orações foi um momento muito especial.

Há muitos anos, tenho uma paixão pelos primeiros judeus que vieram para cá e, quando cheguei no Brasil, tive uma indicação do Rebe para imprimir o livro do “Tanya” no Recife, por ser a primeira comunidade judaica das Américas.

E é pois o único livro em hebraico impresso no local e, desde lá, comecei pois a pesquisar o assunto.

Temos achados manuscritos, alguns em português, dos primeiros rabinos das Américas, os rabinos Isaac Abuhab da Fonseca e Moshe Rafael Aguillar.

Espero, em breve, então, poder publicá-los [Nota da Redação: Já publicado pela Editora Maayanot].

Estive em um Tribunal Rabínico, para podermos avaliar o micve e o que nos alegrou foi o fato de que aqueles cidadãos judeus, que vieram ao Brasil por pouco tempo, trouxeram seus costumes, inclusive o da pureza familiar, simbolizada pelo micve.

Isto, sem dúvida, reforça e encoraja os casais de hoje em aderir a estas leis milenares mais atuais.

TJ: O TRABALHO DOS MESSIÂNICOS VEM CRESCENDO EM TODO O MUNDO. COMO COMBATÊ-LO?

Rabino David Weitman: Vivemos em uma democracia, que respeita a religião, podendo portanto cada um professar a sua fé.

O que não podemos tolerar são aqueles que julgam sua religião superior às demais. Então eles consideram aqueles que não a professam como infiéis. Assim ficam sem direito a um lugar no céu até se converter.

Este é o trabalho destes missionários. Podemos, no máximo, até tolerar o missionarismo daqueles que querem te convencer intelectualmente que a religião deles é a melhor.

O que não podemos aceitar são aqueles impostores como os “Jews for Jesus”. Eles se dizem judeus e acreditam em Jesus.

Hoje, se você passa pela Rua Albuquerque Lins, onde fica a sede do “Bet Sar Shalom”, está escrito no painel “comunidade judaica”.

Eles não são da comunidade. Eles usam uma pseudo-sinagoga judaica para tentar nos enganar e nos atrair. Isto é grave. Eles têm que ser honestos e dizer a verdade.

O Judaísmo nunca achou que todos devem ser judeus. “Um excelente não-judeu tem parte no mundo vindouro”, disse Maimônides.

O que não podemos aceitar todavia  é a mentira de um não-judeu querendo se passar por um judeu para convertê-lo.

(Publicado na Jornal Tribuna Judaica em Abril de 2000)

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