PARA COMEÇAR A APRESENTAÇÃO DO TIPO QUEM É O RABINO DAVID WEITMAN, POR FAVOR FALE-NOS NOME, IDADE, NOME DA ESPOSA, QUANTIDADE DE FILHOS E A IDADE DELES.

R: Quem é o Rabino David Weitman: Meu nome é David Weitman, tenho 46 anos e minha esposa se chama Sônia. Sou Belga e minha esposa é Italiana, ela tem 44 anos e nós temos nove filhos.

SOBRE A VOLTA DOS JUDEUS À RELIGIOSIDADE E AO MISTICISMO. ESSA SITUAÇÃO É VERDADEIRA OU ISSO, ABSOLUTAMENTE, NÃO ESTÁ ACONTECENDO NO MUNDO?

R: Isto é uma realidade incontestável. Hoje em dia existe uma grande volta que ocorre em todas as idades e segmentos. Judeus intelectuais e não intelectuais, ricos e pobres, jovens e idosos.

QUAL A CAUSA DESTE FATO. SERIA UMA CAUSA MÍSTICA OU ALGUMA NECESSIDADE INTERIOR DO SER HUMANO QUE NÃO ESTÁ SENDO PREENCHIDA?

R: Ambas as suposições são verdadeiras. Existe uma “sede” muito grande. O judeu só se sente feliz quando se identifica com sua alma, sua herança espiritual.

O judeu por forma inata é um ser humano que pertence ao povo do livro e por isso ele tem uma ansiedade, uma sede de intelectualidade.

E uma sede espiritual, afinal sua alma esteve presente na revelação do Monte Sinai.

O judeu sempre esteve procurando. Durante as décadas de 60,70 e 80 esta procura ocorreu muito nas religiões e filosofias orientais. Muitos judeus se encontraram também nas filosofias socialistas, comunistas e assim por diante.

Mais tarde, quando isto obviamente já não preenchia o que suas almas procuravam, porque, isto é algo alheio ao judaísmo, “só o sapateiro volta a usar os sapatos de casa”, ele não vai mais a lojas comprar sapatos e hoje estamos testemunhando uma grande volta.

BUSCA POR OBTER O PERTENCIMENTO.

Ela se deve à ansiedade de preencher e conhecer. Cada um quer saber o que lhe pertence. Ninguém gosta de saber que nasceu na rua e não conheceu seus pais.

Hoje, assim como no mundo existe uma tendência a genealogias, saber quem eram os avós e bisavós, espiritualmente, o homem quer saber o que lhe pertence.

Uma alma judia procura o judaísmo. Por outro lado, existe um fator místico, apocalíptico. Pelo fato de estarmos no fim dos tempos.

O fim dos tempos não da forma cristã, de que o mundo vai acabar. O judaísmo, ao contrário, acredita que o mundo vai recomeçar numa Era bem melhor.

De acordo com todos os sinais emitidos no Talmud, nós estamos presenciando a Era pré-messiânica, não há dúvida.

Um dos sinais é a volta. Uma volta interessante e muitas vezes, eu diria, contrária à lógica, já que os filhos trazem os pais.

Quando sabemos que, no judaísmo, a tradição sempre foi transmitida de pai para filhos, de mestre para aluno. Hoje estamos vendo quantos pais voltam à sinagoga levados pelos filhos.

Isto é uma questão de calendário. Estamos numa época em que as profecias que preveem a volta em massa para D’us e para religião estão sendo preenchidas.

Isto também acontece em muitas religiões.

EM POUCAS PALAVRAS, VOCÊ PODE EXPLICAR PARA O LEITOR DE MENORAH POR QUE JESUS NÃO É O MESSIAS?

R: Isto é muito simples. Jesus Cristo era um judeu que depois negou muitas coisas judaicas e teve polêmicas com os sábios da época.

O principal é que o Messias, para nós judeus, é alguém que traz a paz, a harmonia, que vai acabar com os conflitos, com a miséria e com a injustiça que há no mundo.

Infelizmente, desde que Jesus Cristo veio ao mundo, muita injustiça ocorreu. Ocorreram muitas guerras, muitos conflitos, aliás, em nome dele.

Muitas inquisições, perseguições e discriminações em nome da igreja. Não há dúvida de que ele não pode ser o Messias.

Ainda não chegou este momento tão almejado por toda a humanidade. O momento em que haverá paz, harmonia, justiça e abundância para todos.

FALE UM POUCO DAS CONSEQUÊNCIAS DESTA VOLTA DOS JUDEUS À RELIGIOSIDADE.

R: O que vai acontecer na prática será, sem dúvida, a constituição de um povo mais nobre e engajado nos ideais milenares judeus.

Quando o judeu se identifica mais com o que é seu, ele tem de passar por uma transformação de caráter.

Isso é muito importante. Por isso eu sempre digo que os filhos voltam à religião e muitas vezes não sabem como apresentá-la a seus pais.

Depende da corrente em que eles encontraram o judaísmo. Há certas correntes que, infelizmente, não fazem questão de cuidar também da família

O rapaz que mais se identifica com o judaísmo tem de se tornar um filho melhor e tem de cuidar mais da família.

Deve ser um exemplo para a família, um homem honesto em tudo o que ele faz, não apenas no judaísmo.

Ele vai se tornar um cidadão melhor. Se um judeu se identifica mais com o judaísmo, a humanidade e o Brasil vão sair lucrando.

VOCÊ, PROVAVELMENTE, CHEGOU AO BRASIL COM DIFICULDADES RELATIVAS AO IDIOMA, AOS COSTUMES E AO RELACIONAMENTO. QUAL É O TRABALHO QUE UM RABINO NESSAS CONDIÇÕES PRECISA DESENVOLVER PARA ALCANÇAR O SUCESSO QUE VOCÊ ALCANÇOU AQUI NA SUA SINAGOGA?

R: Eu acho que um rabino precisa pois se dedicar e fazer isto por ideal.

Não é uma profissão em que se trabalha porque precisa de um “ganha pão”.

Temos de acreditar no que falamos quando contamos uma história chassídica. Assim, temos de acreditar nos textos bíblicos e talmúdicos. O rabino não pode descartar ninguém no seu trabalho, pois tem de saber que cada um é importante.

Em outras palavras, quem vem na sinagoga tem que receber então o mesmo sorriso, independente de ser pobre ou rico, sábio ou ignorante.

O rabino tem portanto de semear conhecimento, tem de conhecer os membros de sua comunidade. Se ele ganhar a confiança de seus congregados, estes virão pois lhe contar seus problemas e ele poderá lhes ajudar, já que ele conhece as soluções milenares da Torá.

Assim, ele automaticamente então poderá passar adiante o conhecimento judaico.

O rabino tem de se dedicar, realmente, de forma desprendida. Hoje nós podemos ver uma volta extraordinária. Esta sinagoga tem um número inacreditável de jovens. Só neste último ano, foram inauguradas três sinagogas em bairros distantes e todas funcionam perfeitamente. É como uma vela com a qual você acende uma outra. A primeira continua iluminando e a segunda também.

QUAL FOI A MAIOR ALEGRIA QUE VOCÊ TEVE AQUI NO SEU TRABALHO? O QUE VOCÊ PODE LEMBRAR COMO ALGO QUE LHE PREENCHEU, DO PONTO DE VISTA DA CABALA, COMO UMA LUZ ETERNA QUE VOCÊ TENHA PENSADO: “NÃO PRECISO FAZER MAIS NADA PORQUE COM ISSO AQUI EU JÁ FIZ TUDO QUE TINHA DE TER FEITO”?

R: O homem nunca pode pensar desta forma!

Materialmente, a pessoa pode se sentir satisfeita. O contentamento material é uma grande virtude.

Espiritualmente, todavia, o contentamento é um inimigo. Espiritualmente, o homem tem sempre de pensar que ele ainda não fez pois o bastante. A grande alegria é quando enfim você vê continuidade em seu trabalho. Então, continuidade é sinônimo de verdade. Tudo o que é mentira, portanto, acaba um dia. A verdade é sobretudo contínua e perpétua.

Acredito que a grande alegria do homem seja a continuidade.

Vou lhe contar uma história chassídica:

O advogado que defendeu Beilis na Rússia, no famoso processo do início do século vinte, se chamava Guzenberg.

Ele era muito amigo do quinto Rebe de Lubavitch. Durante uma conversa entre os dois, em que o Rebe o abençoou para que ele ganhasse o processo, o Rebe lhe perguntou: “O que você pensa antes de dormir?”. E o Guzenberg respondeu: “Eu penso naquele que eu ajudei, naquele pobre que não podia pagar e eu atendi de graça”.

O Rebe lhe deu um conselho, então: “Você deve pensar em todos aqueles que você não ajudou ainda”.

FALE-ME SOBRE SUA GRANDE DECEPÇÃO NO TRABALHO.

R: A decepção ocorre portanto quando não conseguimos alcançar algo pelo qual lutamos.

Nossa luta é espalhar o judaísmo, é ver os judeus cada vez mais identificados com sua herança.

As vezes, estamos na frente de alguém muito afastado e estamos tentando transmitir uma mensagem.

De vez em quando, sentimos uma barreira por parte desta pessoa.

Pode ser que a pessoa então afastou-se demais, ou quem está falando não o faz de coração.

Nossos sábios nos dizem que quando palavras saem do coração, elas devem também entrar no coração. Quando não entra é decepcionante.

QUAL É EXATAMENTE A LINHA JUDAICA DE SEU TRABALHO? QUAL A FORMAÇÃO DESTA CASA JUDAICA?

R: A minha linha religiosa está enraizada enfim nos ensinamentos do Baal Shem Tov, cujo amor por cada judeu é incondicional e indiscriminado.

Esta comunidade é formada por judeus de origem síria e libanesa, principalmente síria. Eles têm uma tradição muito forte. As estruturas familiares são sólidas e eles realmente tentam passar isto para as próximas gerações. É uma comunidade bastante atuante.

A PESSOA QUE FREQUENTA A SUA SINAGOGA TEM CONSCIÊNCIA DAS BASES CHASSÍDICAS DE SEU TRABALHO?

R: Sem dúvida, até porque eu não escondo isso deles. Estamos transmitindo o judaísmo de forma autêntica e genuína.

Discursa sobre cada shabat, sobre o que se pode aprender na atualidade da Torá. Eu tento sempre mostrar a atualidade da Torá. A Torá é, praticamente, um jornal do dia. Quem sabe ler entre as linhas, vai encontrar lições e legados de como viver feliz hoje, no século vinte um.

O judaísmo e a Torá constituem uma receita de felicidade aqui na Terra, aqui no Brasil, hoje em dia.

HÁ ALGUMA COISA QUE EU NÃO TENHA LHE PERGUNTADO QUE VOCÊ QUEIRA DEIXAR CLARO?

R: Gostaria de deixar patente que, quando vejo a revista Menorah em sua nova forma, lembro-me de que a mídia é muito forte.

É como diziam os sábios do terceiro Rebe de Lubavitch: “algo escrito, impresso fica para a eternidade”.

A responsabilidade é muito grande. O mérito também é muito grande, já que sua revista pode chegar a lares onde, talvez, o rabino não vai chegar.

Hoje, o rabino não pode esperar que o fiel venha a ele. Ele tem de levar o judaísmo a seus fiéis.

A revista, por sua penetração, é capaz de fazer isto de uma forma rápida e aceita.

Por isso faço-lhe um apelo para que, em sua revista, sempre haja uma mensagem de judaísmo.

Tenho certeza de que muitos judeus poderão voltar ao judaísmo dela.

Que D’us lhe dê sucesso neste empreendimento e que você possa levar a palavra do judaísmo aos quatro cantos do Brasil.

QUAL É A SUA OPINIÃO SOBRE A RELAÇÃO DO RABINO HENRY SOBEL COM A IGREJA CATÓLICA?

R: O judeu é um ser social, ele precisa ter principalmente um bom relacionamento com todos.

É muito importante ser um exemplo de dignidade, conhecimento e de moral.

Acredito que temos de ter um excelente relacionamento com os cristãos, já que vivemos num país cuja maior parte da população professa esta doutrina.

Mas, este intercâmbio deve ser todavia cultural, científico. Há pouco tempo atrás, estive no Rio para um congresso sobre AIDS organizado pelo governo.

Discutimos a posição da religião sobre a doença, a prevenção.

Lá havia bispos e padres. Tudo isto é muito bom enfim. Mas, no que se refere a discussões religiosas, intercâmbio religioso ou debates ecumênicos, eu sou contra.

Não somente eu sou contra. Com efeito, a corrente ortodoxa é contra. O motivo é simples: uma discussão tem de ser de igual para igual. Num debate há dois problemas: a pessoa que está na sua frente diz abertamente que quer lhe converter. Nós judeus não temos interesse em converter ninguém. Não somos um povo proselitista.

Quem quer se converter, de forma convicta, será muito bem recebido. Mas, o judaísmo nunca tentou transformar um cristão num judeu.

O judaísmo, que é, aliás, a religião mais tolerante do mundo, diz abertamente que qualquer não judeu que observa as leis universais, tem parte no mundo vindouro. Você pode ser um bom gói e estar ligado com D’us.

(Publicado na Revista Menorah em Junho de 2001)

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