O significado da morte no judaísmo extraímos de nossos livros. São neles que aprendemos que o corpo humano é composto do corpo e da alma.

Hoje em dia, os médicos e cientistas reconhecem que existe algo que dá vida. Inegavelmente algo que dá ânimo, chamado também de anima, vitalidade, sopro vital, energia.

No judaísmo costumamos dizer que, de acordo com os ensinamentos cabalísticos, a alma tem cinco níveis diferentes: Nefesh, Ruach, Neshamá, Chaiá e Yechidá.

Todos os cinco denominam esta força vital, esta alma que anima o nosso corpo.

Ao analisar o texto bíblico da criação do primeiro homem, vê-se claramente, com distinção, que D’us criou primeiro o homem a partir do pó da terra. Depois, então, está escrito como Ele insuflou dentro de suas narinas uma alma, uma vitalidade, “Ruach Chaim”, o espírito da vida.

É esta composição de corpo e alma que faz o homem.

Diferenças entre alma e corpo

A alma aspira sempre por assuntos elevados, enquanto que o corpo, obviamente feito de terra, tem aspirações mais terrestres.

O momento da morte significa o desenlace. É o momento em que se separam, mais uma vez, a alma do corpo. Assim como descreve o Rei Salomão no Livro dos Eclesiastes “veharuach tashuv el HaElokim asher netana” – “ o espirito volta para D’us que o deu”. No entanto, por sua vez, o corpo se desintegra, decompõe-se, com exceção para o caso de ser o corpo de um Tsadik. Neste caso, isto não acontece; a alma permanece eterna e volta ao seu Criador.

Diria que a visão judaica da morte pode ser resumida em poucas palavras, como consta no livro de Jó: “D’us deu e D’us retirou. Que seja o nome de D’us abençoado”.

Em outras palavras, para nós  judeus, quando ocorre o momento da morte, esta sempre se dá na hora que D’us o quer, é Ele quem decide, não há livre arbítrio sobre o tempo de vida, é D’us quem decide quando isto irá ocorrer.

Nesse momento dizemos estar devolvendo a D’us esse depósito que foi a alma que Ele nos deu.

Da mesma forma, todos os dias de manhã, também agradecemos a D’us por nos devolver a alma e termos mais um dia de vida.

A vida terrestre pode fortalecer a alma

O herege, o homem que não acredita nas explicações que damos das leis divinas, deve, obviamente, pensar: “Vamos comer e vamos beber, vamos aproveitar ao máximo porque amanhã nós não estaremos aqui”.

Esta é a filosofia daqueles que acreditam em um único mundo, sem continuidade. Nós, judeus, que acreditamos em um D’us e em dois mundos. Sabemos que a vida aqui é passageira; o homem passa para uma vida diferente, ou seja, passa da vida terrestre para a vida celeste. Isto dá verdadeiramente o significado da morte no judaísmo.

Obviamente, tudo o que mencionamos portanto vai implicar em uma preparação. O homem vai preparar-se durante a sua vida e quanto mais o fizer, tanto melhor para a alma voltar a Seu Criador com pureza, com bagagem, com força, com energia.

Realmente, as boas ações, as mitsvot, como ajudar o próximo, praticar a caridade, colocar o tefilin, acender as velas do Shabat, são ações possíveis somente aqui neste mundo.

É por isso que a alma vem para cá. Aqui ela passa um tempo, para depois então voltar a D’us com bastante bagagem espiritual.

As leis de luto que ocorrem depois da morte de algum familiar são principalmente feitas para consolar e reconfortar a familia. Por não ter mais aquela comunicação física com o falecido, aquela comunicação verbal que existia durante a sua vida, a família obviamente fica muito aflita, triste, e é nossa obrigação tentar aliviar esta dor.

Isto faz parte da grande mitsvá de “nichum avelim”, consolar os enlutados. Mas o consolo é dado junto com uma reflexão. Como dizem os nossos sábios, uma reflexão sobre o significado da morte e principalmente sobre o significado da vida

Falar o kadish para o falecido eleva o significado da morte no judaísmo

A forma correta de honrar o falecido é ver que realmente seus filhos continuem pronunciando o kadish em sua memória. Estuda-se, também, mishnayot (partes da lei oral) por sua alma. Faz-se caridade, bondade, coisas que a alma, sozinha, lá onde está, não pode fazer.

Portanto, os parentes e amigos continuam fazendo-o aqui, em seu benefício. Esta é a forma judaica de honrar os falecidos. É desses atos que compreendemos um pouco mais o significado da morte no judaísmo.

Resumindo, é bom lembrar que a morte é uma passagem de um corredor para um saguão maior. É bom lembrar, também, que boas ações podem ser feitas principalmente aqui. É na terra que o homem se prepara durante sua vida para poder voltar ao seu Criador. Voltar com bastante bagagem, bastante preparo, bastante força espiritual.

Esperemos que chegue logo a época na qual não haverá mais mortes. Será quando D’us apagará qualquer lágrima de todos os rostos, Amen.

(Matéria publicada na Revista Morashá em dezembro de 1996)

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