A oração é um momento no qual o homem abre seu coração perante D’us. Uma hora de concentração, introspecção e reflexão. Durante suas preces o homem se relaciona exclusivamente com D’us, por isto numa sinagoga todas nossas emoções e pensamentos devem ser dirigidos ao Todo-Poderoso. É a hora de estabelecer uma relação vertical com Ele, e não uma relação horizontal com as pessoas em nossa volta. A oração é dirigida ao D’us invisível, e não podemos permitir que seres visíveis nos tirem de nossa concentração. Por isto devemos evitar qualquer distração, qualquer interação social entre homens e mulheres. Não podemos deixar que os olhos nos distraiam. Ter uma mulher ao lado pode tirar a concentração de um homem que está rezando.
(Vale ressaltar algo interessante que pode esclarecer o ponto. Nos Estados Unidos, após vários estudos sobre o rendimento de alunos em escolas públicas, chegou-se à conclusão que era melhor separar os rapazes das meninas nas classes, assim como é feito nas escolas da Europa. A atenção dos alunos em classes onde não há membros do sexo oposto é maior.) Por esta razão, dentro de uma sinagoga as mulheres são separadas dos homens. A separação pode ser algo físico (cortina, biombo) chamado de mechitsá, ou as mulheres sentam num balcão nobre no segundo andar, um mezanino, como se fazia já no Primeiro Templo, em Jerusalém. Não é por falta de respeito à mulher que existe a separação, mas pelo fato da Torá estar ciente da natureza do homem.
Algo tem que ficar claro: a parte da sinagoga reservada as mulheres não é um lugar discriminado. Cada homem e mulher dentro de uma sinagoga dirige suas preces para D’us do lugar onde está, não havendo lugares mais ou menos privilegiados dentro de uma sinagoga. Perante o Infinito, qualquer lugar finito é igual. Existem templos modernos onde famílias inteiras – homens, mulheres e crianças – rezam juntos, numa clara violação da Lei Judaica. A sinagoga congrega indivíduos cujo propósito é se dirigir a D’us, não sendo pois o lugar para promover reuniões familiares ou sociais. Além do mais, como fica um homem ou uma mulher solteira no meio de famílias, um órfão, uma viúva? Vai sentir-se diferente, solitário, alienado. Na hora do serviço em louvor a D’us lhe será relembrado que é diferente, que não tem família, que está excluída. Isto é grave, ninguém tem direito de envergonhar o outro, de fazê-lo sentir-se inadequado, particularmente durante as rezas.  Por isto, quando existe uma separação, todas as mulheres numa sinagoga sentam juntas, unidas, e os homens também, e a oração se torna individual. É verdade que necessitamos de um minian e de um lugar comum para rezar, mas uma sinagoga congrega indivíduos. E nesta hora de intimidade com D’us, nesta hora que estamos frente a Ele, é essencial sentirmo-nos bem. A mechitsá acrescenta respeito à nossa individualidade.
Não seria melhor abrir mão e deixar as mulheres sentarem-se junto com os homens na sinagoga? Será que não seria esta uma forma de atrair mais gente? O judaísmo não é um produto à venda cuja veracidade depende de uma aceitação pública, ou de sua capacidade de abrir mercados. A religião judaica tem origem divina, com tradições milenares que nos foram acompanhando durante toda nossa história. Assim como ela protege e preserva o povo judeu há milênios, hoje cabe a nós preservá-la. Se acreditarmos em seu caráter divino, se acreditarmos que foi D’us quem nos outorgou a Torá, não há necessidades de mudanças. Esse D’us em quem acreditamos é a Perfeição e a obra que Ele deu não precisa de correções ou retoques humanos. A verdade é algo absoluto. Por isto, o argumento de que devemos mudar as leis para atrair mais é muito perigoso; estaríamos invalidando a Lei, implicando em que D’us não é perfeito. Estaríamos tratando uma obra Divina como se fosse humana e que, como tal precisaria de melhoramentos, retificações. No momento em que uma religião começa a mudar para se adaptar não há limites para estas mudanças. A ética e a moral judaica não dependem da aprovação popular. Maimônides dizia que “a verdade não é mais ou menos verdade dependendo do número de pessoas que acreditam nela”. A Torá não pode ser distorcida, devemos mantê-la assim como ela nos foi dada por D’us, da forma mais autentica possível.
Certas atitudes que estamos observando hoje em dia nos dão a nítida impressão que a Lei é um produto que pode ser modificado segundo a vontade do cliente, que poderá encontrar o que mais lhe agrada. Esta é uma forma muito barata de judaísmo. A Torá não é um “produto”, é uma obra Divina. É algo que nos foi dado por D’us cujo objetivo é nos melhorar, nos elevar espiritualmente, tornar-nos mais próximo Dele. A única forma de um ser finito se comunicar com o D’us Infinito é usar os instrumentos que Ele nos deu, não os nossos próprios.
 
(Publicado na Revista Morashá em Junho de 1999)

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