Boa noite a todos. Nesta palestra sobre células-tronco trazemos mais material acerca do assunto. Um tema que desperta máximo interesse hoje em dia.

Antes de mais nada, o que significa células tronco? Sabemos que o corpo humano é formado por várias células. Existem tipos de células especiais que desenvolvem vários tipos de tecidos ou órgãos como pulmões, membranas, orelhas, vasos, etc.

No começo da vida essas primeiras células são gerais ou genéricas. Eu estou falando como leigo e não como médico, pois eu sou um Rabino e como tal, preciso esclarecer a visão da Torá a respeito desse assunto.

Nós estamos vivendo numa época cujos avanços tecnológicos e científicos estão muito avançados e todos procuram cura para diversas doenças que afligem o ser humano, principalmente aquelas degenerativas como Alzheimer, Parkinson, entre outros problemas e doenças que atingem o sistema nervoso central.

Assim, essa palestra sobre células-tronco é oportuna. Ao passo que a ciência diz que se a gente pegasse células que ainda não são diferenciadas e as desenvolvêssemos através de certos meios parecidos ao do corpo, a gente seria capaz de criar órgãos e tecidos que poderiam curar pessoas que precisam.

Por exemplo, alguém que tem um problema na membrana que envolve o coração no miocárdio; se pudermos pegar uma célula que ainda não está diferenciada e desenvolvê-la de tal forma que ela forme esta membrana, nós vamos poder implantá-la naquela pessoa.

Falando mais grosso: alguém que lhe falta a orelha, apesar de haver órgãos mais vitais do que a orelha, poderia consegui-la através da cultura das células tronco. Esse é o assunto desta palestra sobre células-tronco.

Transplante de órgãos e células-tronco

Vocês poderiam perguntar: “afinal hoje em dia existem transplantes de órgãos, para que então esse novo método?”

Mas todos nós sabemos que quando se transplanta um corpo estranho, há o perigo da rejeição. Por isso o transplantado precisa tomar, talvez pelo resto de sua vida, remédios fortíssimos para evitar a rejeição à este corpo estranho.

Esses remédios trazem consigo efeitos colaterais pesados para o paciente. Mesmo assim não é certeza que o corpo não irá rejeitar.

Se pudéssemos pegar o tecido e as células da própria pessoa e desenvolvê-las num órgão, isto poderia literalmente salvar vidas. Poderíamos curar doenças que até hoje nos parece incuráveis.

Poderemos reconstituir a medula de uma pessoa paraplégica e assim por diante; isto tem muitas implicações que talvez uma só palestra sobre células-tronco não caberia.

Conhecendo mais de perto as células-tronco

Nas células tronco existem essas células na sua origem, assim como o tronco de uma árvore.

Antes de ela se desenvolver e criar galhos com folhas e frutos, o tronco é o início e a origem da árvore.

Existem células tronco adultas e existem células tronco embrionárias que são bem diferentes.

As adultas já são diferenciadas, apesar de ainda não ser algum componente especifico. Por isso é mais difícil de trabalhar com elas e dirigirmos-la para o que nós queremos, assim dizem os cientistas.

Por isso as células ideais para se trabalhar e direcionar ao órgão que se quer são as células embrionárias que nelas não há diferenciação alguma.

Assim, elas podem ser direcionadas para qualquer componente do corpo, seja sangue, vasos, membranas, órgãos, membros, etc., pois são totalmente não diferenciadas.

Essas células são encontradas em embriões e fetos. Já células adultas se encontram na placenta, na medula. Alguns dizem que ainda se encontra na gordura que é retirada da lipoaspiração. Esta é uma definição bem clara do tema que podemos resumir dentro dessa palestra sobre células-tronco.

Torá, a Ciência Divina

Nós judeus acreditamos que a Torá é a planta baixa deste mundo. D’us olhou na Torá e criou o mundo. Em outras palavras, todas as descobertas científicas têm uma definição dentro da Torá. Nós acreditamos que a Torá é uma Ciência Divina, o Conhecimento Supremo de D’us.

Os grandes sábios da história judaica tinham grande conhecimento de ciência laica como astronomia, por exemplo.

Quem conhece realmente a Torá em sua profundidade, inclusive em seus detalhes do Talmud, explicações místicas do Zohar e da Cabalá, tem acesso a todas às ciências humanas, sem dúvida nenhuma.

Por isso, muitas descobertas científicas que foram encontradas nos últimos 200 anos, já foram mencionadas em nossos livros escritos há 2000 anos ou mais.

Por exemplo, uma operação de retirada do útero chamada estectomia, cujo procedimento é feito há cerca de 150 anos, já é mencionada no Talmud com detalhes.

Somente atualmente é que se descobriu que o olho possui dezenas de membranas, mas o Talmud já falava sobre isso tempos atrás.

É importante saber que o judaísmo tem sua posição sobre as inovações nesse campo da medicina e os rabinos especializados conhecem perfeitamente o ponto de vista da Torá e baseado nela eles legislam a Halachá, a Lei Judaica.

Por exemplo, há uma grande discussão sobre o aborto de crianças sem cérebro e o judaísmo também tem uma opinião formada a respeito. Por essa razão uma palestra sobre células-tronco tende a extrapolar o próprio tema para subtemas igualmente.

Ilustração brilhante na palestra sobre células-tronco

Há pouco tempo atrás recebi um e-mail de uma pessoa que participou de um congresso nos EUA de neurologia.

Uma das neurologistas da Inglaterra abordou um tema que ela pesquisa há muitos anos, sobre pessoas que acordam de manhã e logo desmaiam.

Ela fez uma exposição brilhante e a conclusão foi que o sangue que se encontra nas pernas demora 12 segundos para irrigar melhor o cérebro e o sistema nervoso.

Se uma pessoa se levanta rápido da cama, ela não permite que esse processo ocorra de forma completa e isto pode causar desmaios. Por isso ela aconselha todos que ao acordarem, sentar e contar até doze, antes de levantar.

Depois dos aplausos levantou-se um médico judeu importantíssimo e disse que há no judaísmo uma tradição milenar que ao acordar devemos falar uma pequena parece de agradecimento a D’us que contém exatamente doze palavras, o “Mode ani” e ele também foi aplaudido pela plateia.

Outra visão religiosa perde para a legislação vigente

Há cerca de dois ou três anos atrás, a legislação brasileira permitia a pesquisa com células tronco embrionárias, mas um dos juízes da Suprema Corte, que é um católico fervoroso, se levantou e alegou que a Constituição brasileira determina o direito à vida e por isso o Estado deve proteger seus cidadãos.

A igreja disse que o embrião, mesmo pré-implantado que se encontra numa clínica de fertilização, tem vida. Para eles é considerado um ser humano e quem mata um embrião é considerado um assassino.

Sendo assim, não pode mexer nele, assim como é proibido mexer em alguém vivo. Esta é a visão da igreja católica.

Dessa forma eles quiseram proibir a pesquisa com células embrionárias, pois dessa forma você estaria descartando uma vida.

Isso foi levado ao debate, mas a igreja perdeu e o Brasil aprovou a pesquisa e assim ele se encontra entre os 26 países do mundo que permitem pesquisa com células tronco embrionárias. Isso é um dado muito relevante que trazemos para dentro dessa palestra sobre células-tronco.

Embriões e fertilidade

Da onde surgem esses embriões? De um casal fértil não pode ser, pois eles querem que nasça o seu filho da forma mais natural possível. Mas existem casais que precisam recorrer à fertilização assistida que é permitida pelo judaísmo, contanto que seja de forma homogênea, ou seja, que o material colhido seja apenas do marido e da esposa.

Para garantir o sucesso da gravidez in vitro, os médicos aumentam a ovulação da mulher através de hormônios. isso provoca que ela tenha até 15 ovulações, em vez das duas habituais.

Os médicos fazem a fecundação no laboratório até conseguirem o zigoto. Depois reimplantam na mulher até 3 embriões, para garantir que pelo menos um deles se desenvolva.

Os outros que sobram são congelados em nitrogênio. Assim, o casal poderá recorrer a este material caso o procedimento não tenha dado certo. Isso, pois, evitaria o desgaste físico da mulher com os hormônios.

Após três ou quatro anos esses embriões não servem mais para serem reimplantados e são simplesmente descartados. Conclusão triste a que chegamos a esta altura da palestra sobre células-tronco.

Visão judaica sobre fertilização

Agora o ponto de vista judaico: um feto que está na barriga da mãe no terceiro ou quarto mês de gestação, e se D’us nos livre alguém se envolveu numa briga com essa mulher e bateu nela de forma que matou o feto.

Pelo judaísmo aquele que praticou esse ato deverá pagar uma indenização para aquela mulher. Todavia, nem a Torá e nem qualquer legislação no mundo considera esse homem um assassino.

Aliás, esse caso já foi previsto na Torá . Por quê? Pois pelo judaísmo esse feto é um ser vivo, mas não é um ser humano, o que é bem diferente.

Somente a partir do momento que a mulher deu à luz, e a criança saiu do ventre materno, é considerado um ser humano. Então, por consequência, ela irá merecer todos os direitos como tal, e quem o mata é um assassino.

A diferença é que se uma pessoa está passando mal, correndo risco de vida, mesmo no sagrado dia de Yom Kipur, deverá ser levada a todo custo para o hospital e deverá comer imediatamente para salvar sua vida.

Exemplo de transgressão no Yom Kipur

Uma mulher grávida que suspeita que algo esteja acontecendo com o seu feto, também pode transgredir o Yom Kipur. Isto porque ele é um ser vivo, mesmo que não seja um ser humano completo.

Mas se um animal está doente, isto não justifica a transgressão do Yom Kipur. No caso de haver um embrião reimplantado numa mulher, por meio de fertilização in vitro, a halachá é clara. Esse embrião se encontra no congelador numa clínica e corre risco de ser perdido no Yom Kipur, mas não é permitido transgredir o dia sagrado.

Isto se deve a um motivo muito simples: o feto na barriga da mãe é mais próximo ao ser humano do que o embrião congelado que ainda não se encontra implantado.

O embrião pré implantado é um começo de vida, mas não um ser vivo. Não posso transgredir o Yom Kipur para salvar algo que eu preciso assistir para tentar criar uma vida. Vale atentar bem para este ponto crucial que destacamos em nossa palestra sobre células-tronco.

Níveis e categorias

Aqui nesta palestra sobre células-tronco nós podemos encontrar três níveis e categorias:

1) O ser humano;

2) O feto na barriga da mãe que é um ser vivo, mas não um ser humano. Prova disso, que se eu o mato, não sou considerado um assassino; por isso devemos fazer de tudo para salvá-lo.

A diferença entre um ser vivo e um ser humano é que se esse feto está colocando a vida da mãe em perigo, e o médico diz que só é possível salvar a vida de um ou de outro, o judaísmo diz que a mãe deve viver.

Já os católicos dizem que deve salvar a criança, pois a mãe já viveu o que tinha que viver e agora deixa o neném nascer.

O judaísmo, entretanto, é de opinião que essa mãe poderá ter outros filhos mais tarde. Se isso não for possível, sua vida tem preferência. Se na balança temos um ser vivo de um lado e um ser humano do outro, devemos dar preferência ao ser humano.

Mas se são dois seres humanos em jogo, não temos como escolher; não posso salvar a vida de um em detrimento e abreviando a vida do outro. Então, quando temos uma situação na qual o ser humano está em perigo por causa de um ser vivo – no caso um feto –, eu escolho e dou preferência à mãe e não ao feto. Mas existe algo que está numa categoria abaixo do feto:

Ênfase sobre o 3º ponto

3) O embrião pré implantado, que é um começo de vida apenas. Para o judaísmo a vida começa na fertilização quando o sêmen se encontra com o óvulo chamado de concepção. Neste momento, pois, começa a vida. Não é a mesma coisa de um feto que já está implantado no ventre da mãe. Neste caso ele poderá se desenvolver sozinho. Por isso não transgredimos o Yom Kipur para salvar um embrião pré implantado, mas ao mesmo tempo é um começo de vida.

O judaísmo e os embriões pré-implantados

Com essas definições bem claras, vamos entender a posição judaica na qual vale ressaltar nesta palestra sobre células-tronco:

O judaísmo diz que esses embriões pré implantados que estão nas clínicas de fertilização, congelados aos milhares, tem um começo de vida, que dentro de dois ou três anos não servirão mais para serem implantados e vão acabar sendo descartados.

O judaísmo diz que em vez de serem descartados de qualquer forma, é melhor pesquisar para que daqui a alguns anos possam salvar pessoas. Mas isso na condição que estamos fazendo em vez de descartar.

Por isso o judaísmo é totalmente diferente da posição da igreja. Sendo assim não há diferenças entre os cientistas e a posição do judaísmo?

Claro que há! A posição do judaísmo não é nem de um lado com os cientistas nem do outro com a igreja, apesar de haver pontos em comum de um lado e do outro.

Definição de morte para a ciência

Qual é a definição da morte para os cientistas? Quando há morte cerebral e a atividade cerebral é nula, apesar da pessoa ainda estar respirando, pois para eles isto é um impulso elétrico natural.

Já o judaísmo sustenta que a morte é definida quando há parada respiratória e cardíaca. Já que para os cientistas é o cérebro que determina a morte, logo, é ele que determina a vida.

Por isso, no momento em que o cérebro começa a se desenvolver no feto é considerado o começo da vida para a ciência moderna, o que ocorre no 14º dia.

Até então não há cérebro, e é chamado de pré embrião pelos cientistas. Por isso eu chamo aquele embrião na clínica congelado de pré implantado e não embrião, pois este é um termo que os cientistas usam.

Confirmação biológica à visão judaica

Para nós judeus, o começo da vida se dá no momento da fertilização. Quando as células começam a se multiplicar, processo chamado de amitose, depois zigoto e depois blastocita.

A partir desse momento já tem vida. Nós judeus falamos que quando já tem embriões pré implantados congelados, em vez de simplesmente jogá-los fora podemos usá-los para pesquisas. Todavia não podemos criar clínicas que vão criar os embriões exclusivamente para pesquisa.

Já para os cientistas, que sustentam que até os 14 dias não há vida, poder-se-ia criar uma “fábrica” de embriões. Assim, se poderá usá-los apenas com finalidade de pesquisas.

O judaísmo jamais permitiria criar e fertilizar embriões com fins exclusivos de pesquisa. Isso porque o embrião não deixa de ser um ser vivo.

Isso é muito perigoso. Imagine se não houver uma legislação rigorosa com muita ética e moral que regulamente as ações. Abrir-se-á,um caminho para um comércio de venda de sêmen e óvulos. O mundo, portanto, transformar-se-ia numa grande fazenda de embriões pré implantados.

Não há dúvida que os países precisam de uma legislação séria para manter a ética e a moral. Os católicos dizem que D’us é sagrado e a natureza é sagrada. O judaísmo não diz que a natureza é sagrada e imutável, mas que o homem pode mexer na natureza para melhorá-la e nos tornarmos sócios de D’us, assim como está escrito na Torá : “Asher bara Elokim laassot” – “Que D’us criou para fazer”. Descobertas científicas são bem-vindas, mas sempre acompanhadas de ética, sempre com limites e regras.

Regras de fertilização fora do Brasil

Na Europa por exemplo, existem regras bem definidas para clínicas de fertilização, mas o Brasil ainda não possui.

Me refiro a pessoas que acompanham a todo o processo. Infelizmente existem pessoas sem escrúpulos que se aproveitam de uma série de coisas para praticar atos ilegais e imorais.

Várias mulheres nos EUA que recorreram a clínicas de fertilização. Porém, somente agora descobriram que o sêmen utilizado não era do marido, mas do médico de Los Angeles que enganava as pacientes.

Se não houver uma fiscalização rigorosa poderão transformar embriões em peça de reposição. Isso sem respeito algum, principalmente quando os avanços com as pesquisas derem resultados concretos. Contudo, até o momento não houve nenhum resultado concreto dessas pesquisas. Todos estão ansiosos por isso, mas até o momento quase nulo.

Esta é a íntegra da palestra sobre células-tronco proferida pelo Rabino David Weitman no Beit Chabad Morumbi,

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