De acordo com o judaísmo, uma das grandes dádivas de D’us ao homem é o poder da fala, e a palavra é a substância. Esta noção pode ser encontrada no Gêneses onde está escrito que D’us colocou uma nefesh chayá, uma alma viva, um espírito vivo, dentro do homem.

A explicação dada pelos nossos sábios para o uso destes termos “uma alma viva” é a força e o poder da fala. Este poder pertence a D’us. Realmente, na escala de classificação do mundo em mineral, vegetal, animal e humano, o homem, em hebraico, é chamado de Medaber, o que significa não o ser intelectual mas o “ser falador”.

Esta é a grande virtude do homem: o poder da comunicação. Enquanto o intelecto é algo para si próprio, a fala é para a comunicação com os outros. E muito importante o homem se dar conta de que não vive só, há outras pessoas ao seu redor.

Em nossa história encontramos que até mesmo aqueles cabalistas místicos que conseguiam criar um Golem, um tipo de ser robótico, não conseguiram dar-lhe o poder da fala. O Golem não falava. Esta dádiva, este espírito especial, somente D’us pode insuflar no homem.

A palavra que louva a D’us

Pode-se ver o poder da fala no ato da Criação. D’us criou o mundo através da palavra, ao pronunciar dez Asserções: que haja firmamento, que haja a luz, e assim por diante, até completar os dez Pronunciamentos.

Mais tarde, encontramos os dez Mandamentos que também são sob forma de fala. Vemos, portanto, que quando D’us queria transmitir Seu fluxo vital, Sua energia para estes mundos, o fez através da fala.

Vemos, portanto, que o homem tem, através da boca, um poder excepcional, um instrumento poderoso, e D’us faz questão que o usemos corretamente.

Em nossas rezas, na tefilá, fazemos questão de usar os lábios, já que sabemos que devemos usar a boca que D’us nos deu principalmente para agradecer, pedir e louvar a D’us.

Também estudar a Torá, como repetimos todos os dias no Shemá Israel… “e falarás a respeito delas”.

Duplo viés da palavra

Por outro lado a boca é uma faca de dois gumes; assim como pode ser algo excepcional, se usada de forma positiva, pode (que D’us nos livre) prejudicar.

Após festejar Yom Kipur é fácil constatar que na listagem das confissões dos nossos erros, grande parte dos mesmos são cometidos pela boca : fofocas, maledicências, falar mal dos outros, etc.

Conforme disse um grande sábio judeu da época medieval, Rebe Menachem Meire, “a língua é a única parte do corpo que não tem ossos, mas é capaz de quebrá-los todos” .

Sabemos que uma palavra mal dirigida, um abuso verbal, pode acabar com uma pessoa. Mais ainda, sabendo que nossa boca tem um poder realmente excepcional, devemos cuidar do que falamos.

Está escrito na Ética dos Pais: “Não abra sua boca para coisas negativas”. Não devemos, portanto, falar em demasia de tragédia, tristeza, adversidades, já que sabemos que nossa boca tem poder.

Segundo nossos livros, “aquele que cuida de sua língua, realmente protege sua alma da aflição”.

O judaísmo recomenda que às vezes é melhor não falar. Temos que aprender a calar e ouvir, já que segundo nossos sábios, o preâmbulo da sabedoria é o silêncio.

Temos que saber ouvir, tal como ouvimos o Shofar em Rosh Hashaná. David, o Rei, é chamado de piedoso porque ouviu alguém amaldiçoá-lo e não retrucou. Aaron, quando escutou a notícia de falecimento de seus filhos, ouviu e manteve-se calado. O Rei Salomão escreve: “Há momento para se falar, há momento para se calar”.

Momento para se calar

Às vezes temos que saber nos calar, principalmente quando há pessoas mais sábias à nossa frente. Tampouco devemos interromper a conversa de outros. Escutar, aprender e ouvir, esta é a forma de progredir no judaísmo.

É por isto que nossos sábios dizem algo muito parecido ao que me foi perguntado: “se uma palavra vale uma moeda, o silêncio vale duas.” Permanecer em silêncio é uma forma de abnegação, de modéstia, de recato.

Raquel, a matriarca, ficou quieta, apesar de ver seu pai pegar os presentes de Jacob, e entrega-los à irmã mais velha, Léa. E isto lhe foi de grande valia, pois como recompensa por seu silêncio, conseguiu através de José, seu filho, colocar de uma só vez duas tribos entre as doze. Os dois filhos de José, Menashe e Efraim, o substituíram.

O silêncio permite à pessoa não errar. Se ela não se precipitar em falar, não ficar irada, não terá que se arrepender e se desculpar depois.

É um pouco como o “no break” que o computador tem, para a corrente elétrica não queimar os fusíveis.

O silêncio permite que a nossa corrente interna não entre em curto-circuito, de repente. Permite-nos refletir antes de falar, o que certamente tornará nossa fala mais poderosa.

É por isto que encontramos no Talmud-Babilônico (Tratado de Kidushin) que, quando se estava à procura de uma família com qualidades especiais, procuravam-na entre as mais discretas, pois o silêncio é uma virtude.

Momento para não se calar

No entanto, não é sempre que se deve ficar silencioso. Às vezes devemos protestar. Quando vemos um erro grave, uma profanação do nome de D’us, não podemos nos calar.

Yossef, José, foi castigado por ter ouvido seus irmãos falarem 10 vezes na sua frente “nosso pai, seu servo” e ter se calado . Ouviu isto dez vezes calado, e por isso lhe foram tirados dez anos de vida.

Viveu apenas 110 anos, quando a idade almejada é 120 anos. A Torá preconiza que devemos cumprir o que prometemos. Por isto acabamos de ter o Kol Nidre e a Hatarat Nedarim para anular as promessas feitas pela nossa boca e não cumpridas.

Concluindo, ao fazermos uso da fala, devemos fazê-lo para coisas positivas e boas. Já que a mesma tem tanto poder, imaginem se procurarmos falar bem dos outros, sempre procurando qualidades no próximo, quantos fluxos positivos atrairemos.

(Matéria publicada na Revista Morashá em Dezembro de 1995)

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