Dos 65 mil judeus que viviam no Egito em 1947, há opiniões de que talvez um terço buscou refúgio no Brasil nas décadas de 1950 e 1960. Alguns, por vontade própria; outros, por terem sido expulsos. A partir da ascensão de Gamal Abdel Nasser ao poder, a vida dos judeus egípcios ficou ainda mais difícil, devido às suas ideias de Pan-arabismo e à sua postura abertamente antissemita e antissionista. Em 1954, Nasser lançou uma campanha nacionalista de cunho racista, abolindo a cidadania egípcia da população judaica local, o que provocou o êxodo desses judeus para diversos países, como Israel, França, Brasil e Austrália. Munidos apenas de um Laissez-Passer, no qual estava escrito com letras bem claras “Voyage sans retour” (“Viagem sem retorno”, ver fac-símile na capa), os judeus iniciavam o segundo êxodo do Egito, 3.260 anos após o primeiro, que ocorreu sob a liderança de Moisés, Moshé Rabênu.
A verdade é que na Torá consta uma lei explícita de não retornar ao Egito (Deuteronômio 17:16). Isto porque, naquela época, os judeus já haviam completado sua missão espiritual naquele país. Assim mesmo, a partir da destruição do Primeiro Templo, muitos judeus voltaram ao Egito e estabeleceram grandes e gloriosas comunidades. Os Sábios do Talmud (séculos III a V d.e.c.) nos relatam que a sinagoga de Alexandria era tão grande que, para avisar os presentes que rezavam no fundo da sinagoga o momento de responder amên, os bedéis da sinagoga precisavam levantar bandeiras (Sucá 51b).
Maimônides, o grande mestre, filósofo e codificador espanhol do século XII, resolveu estabelecer-se definitivamente em Fostat (a antiga Cairo), sob o reinado dos Califas Fatimidas, e lá tornou-se o dirigente máximo da comunidade (naguid). Ele escolheu o Egito para reaproximar os judeus influenciados pelo caraísmo para o Judaísmo tradicional (Rabanita). Graças ao seu domínio dos conhecimentos religiosos e profanos, tornou-se o médico do vizir Alfadhil, e, depois, do próprio sultão Saladino. Rapidamente sua fama ultrapassou fronteiras, transformando o Egito em um centro importante do Judaísmo. O mesmo ocorreu com outros luminares que moraram no Egito, como Rabi David Ben Zimrá (Radbaz), mestre do grande cabalista Rabi Yitschac Luria, o Arizal, sendo que este último morou no Egito por 10 anos.
Centenas de comunidades judaicas floresceram em diversas cidades do Mediterrâneo, desde o Marrocos até o Egito, e por lá permaneceram durante séculos. Delas saíram muitos sábios, rabinos eruditos, homens da ciência, da filosofia e da poesia. Apesar de a bacia do Mediterrâneo ter sido o berço de grandes vultos do Judaísmo, grande parte dessas comunidades são hoje apenas uma sombra do seu passado, seja por causa de perseguições cruéis, seja por ondas migratórias. Muitas gloriosas comunidades se transformaram em ruínas e monumentos; outras continuam a gozar da liberdade para praticar sua fé e suas tradições.
Nossos sábios enfatizam que uma árvore que possua raízes fortes suporta qualquer ventania (Pirkei Avot 3:17). Em outras palavras, quem respeita o seu passado tem seu futuro mais garantido. Sendo assim, louvável é o trabalho da autora Anna Rosa Campagnano, que, com muito estudo, pesquisa e total colaboração do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro (AHJB), conseguiu redesenhar com muita minúcia a vida, a cultura, as tradições e os ensinamentos religiosos dos judeus egípcios que lá viveram por séculos. Através de entrevistas e documentos, no transporta à gloriosa comunidade egípcia, seus diversos integrantes, suas sinagogas, escolas e instituições beneficentes. É importante frisar neste momento também a recepção calorosa que estes refugiados tiveram no Brasil, com sua tolerância religiosa, e onde, com sagacidade e perseverança, recomeçaram suas vidas a partir do zero.
Apesar de todo o sofrimento pelo qual passaram em seu país de origem, os imigrantes egípcios — transformados do dia para a noite em apátridas — trouxeram em sua bagagem a fé e a esperança milenares, que garantiram a sobrevivência do povo de Israel até hoje. Conforme consta na Bíblia: “D’us os espalhará entre as nações… Assim, mesmo quando eles estiverem em terras estrangeiras, Eu não desgostarei deles nem Me cansarei deles” (Deuteronômio 4:27, Levítico 26:44).
(Extraído do prefácio do livro Viagem sem Retorno, Editora Maayanot, S.Paulo)