Antes de tornar presente o memorial da imigração judaica aqui no Brasil, um fato terrível marcou nosso passado:

19 de abril de 1903: um terrível massacre ocorre contra os judeus de Kishinev, capital da província da Bessarábia, do Império Russo.

Dezenas de mortos, centenas de feridos, bebês brutalmente assassinados, 700 casas destruídas, 600 lojas saqueadas.

Em resumo, duas mil famílias judias encontram-se sem teto. Mais um libelo de sangue, e a polícia nem intercedeu. Infelizmente, as ondas antissemitas repetiram a cena em 1905, em escala menor.

Êxodo de judeus da Romênia

Este pogrom de Kishinev, hoje capital da Moldávia, desencadeou um grande exílio, o êxodo dos judeus da grande Romênia, como se chamava, que era a Bessarábia, Bucovina e Transilvânia, onde residiam 1 milhão de judeus.

Uma parte foi para a América do Norte, e a outra foi para a América do Sul.

Aqui, em S. Paulo, já havia algumas famílias russas, como os Klabin, Tabacow, Teperman, Gordon e Mindlin, que vieram por volta de 1890.

A eles se juntaram estes imigrantes da Bessarábia, como os Nebel, Krasilchik e Berezowsky, e fundaram esta primeira sinagoga do estado em 1912.

Com a cara e com a coragem

Com a cara e a coragem, além dos sonhos e da roupa do corpo, eles traziam debaixo do braço algo a mais: seus talit e tefilin; seu Judaísmo e o de seus ancestrais, que, apesar das perseguições, jamais foi esquecido.

Nas palavras de Guilherme Krasilchik, filho de Yoina (o marceneiro que com suas mãos construiu esta Arca Sagrada aqui na nossa frente):

“Estes pioneiros tinham poucas posses, mas o ideal desses homens era enorme”.

Nos estatutos daquele primeiro ano, 1912, constava a construção de uma cooperativa, de uma sinagoga e de um cemitério. Chamaram este local de Kehilat Israel, Comunidade Israelita, pois já estavam pensando em estabelecer uma comunidade organizada.

Santificar-se a D’us exige sacrifícios

Com enorme sacrifício, através de uma hipoteca, compraram o sobrado que aqui ficava, resgatando prestação a prestação.

Embaixo, no porão, havia quartos para os imigrantes pernoitarem. Outrossim, em cima, funcionava uma escola de iídiche, com o professor Yechiel Itkes, que veio do sul, a primeira semente da Escola Renascença.

Logo instalou-se uma biblioteca, com o esforço de Abrão Kaufman (afinal, somos o povo do livro).

Em 1925, numa reunião de ativistas nesta casa, foi fundada a Sociedade Cemitério Israelita, a Chevra Kadisha.

Logo após o término da Primeira Guerra Mundial, a gripe espanhola atingiu S. Paulo, e as sinagogas do Bom Retiro foram transformadas em hospitais e abrigos para os enfermos (embrião do Hospital Israelita Albert Einstein).

Em resumo, este local foi a pedra angular da comunidade judaica organizada que conhecemos hoje, com suas várias ramificações e instituições.

Uma firme decisão para crescer

A velha casa transbordava de pessoas, quando, posteriormente, décadas depois, os diretores resolveram não mais adiar o sonho.

Derrubaram então o sobrado velho e construíram este magnifico prédio. Até os anos 90, este local era repleto de acontecimentos e festividades, assim não havia cadeiras que bastassem.

No final dos anos 90, após o grande êxodo dos judeus do Bom Retiro, resolveram entregar os cuidados desta casa para o Ten Yad, com a promessa de que a memória desses primeiros imigrantes fosse preservada.

Foi assim que nasceu esta instituição independente, que é o Memorial da Imigração Judaica, uma justa homenagem, e no local adequado, bem no polo cultural da cidade, ao lado da Sala S. Paulo, do Museu da Língua Portuguesa, da Pinacoteca, etc.

Um país acolhedor e de braços abertos

O Brasil foi extremamente acolhedor e receptivo para esses imigrantes da Bessarábia. E aqui eles tiveram a oportunidade de recomeçar as suas vidas. Porém, não era a primeira vez. Já nos séculos 16 e 17 o Brasil abrigou judeus que fugiam das perseguições das inquisições espanhola e portuguesa.

Primeiramente, no século 19 vieram os judeus do Marrocos e da Alsácia, que foram bem acolhidos e se integraram à vida do Brasil.

Aliás, desde o início do desenrolar da aventura ibérica no Novo Mundo, os judeus sempre estiveram presentes aqui no Brasil.

O Caramuru, colonizador do Norte do Brasil; João Ramalho, colonizador do Sul; e mais tarde, Fernão Dias, todos entretanto eram descendentes de judeus.

Aqui a Providência Divina nos trouxe, a fim de que pudéssemos receber oportunidades de aprender e crescer, sustentar nossas famílias e professar a nossa fé com liberdade.

Apenas um simples exemplo, recordado no estudo oficial da USP: entre 1908 e 1945, 310 indústrias se instalaram neste bairro do Bom Retiro.

Aquelas não pertencentes aos judeus não ultrapassavam uma dezena. Então chegou o momento de agradecer, porque nós, judeus, somos um povo que conhece a gratidão.

O Memorial da Imigração Judaica no Brasil está no Bom Retiro

Bem aqui, em S. Paulo, definida pelo poeta Mário de Andrade como uma boca de mil dentes, metáfora para uma cidade capaz de abrigar todas as culturas, e bem aqui, no Bom Retiro, onde muitos de nossa gente começaram, um bairro que é uma coletividade de etnias diferentes, um microcosmo do Brasil acolhedor, surge aqui o Memorial da Imigração Judaica no Brasil.

Sim, é neste país que crescemos, trabalhamos muito duramente e escrevemos uma maravilhosa história. Esta foi iniciada principalmente em algum porto ou em uma terceira classe de algum navio partindo para o Novo Mundo.

É do ventre da imigração, portanto, que nasceram gerações de médicos e advogados, comerciantes e industriais, professores e trabalhadores, e aqui estamos para homenageá-los.

Para nós, povo de Israel, o passado é igualmente parte do presente e um trampolim para o futuro. A Torá nos lembra mais de 36 vezes que fomos escravos no Egito.

Cortar as raízes de uma árvore coloca em risco os galhos e o tronco. Assim como bem escreve o conhecido autor e jornalista Alberto Dines: “Perda de memória no plano individual é inevitável; no plano coletivo é imperdoável”.

(Discurso proferido na inauguração do Memorial da Imigração Judaica no Brasil – Fevereiro de 2016)

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