No processo migratório das diversas comunidades judaicas nos últimos dois milênios, podemos encontrar algumas semelhanças: mesmo tendo deixado seus lares às pressas, abandonado seus bens devido aos ódios, perseguições e pogroms e enfrentado os maiores obstáculos, os judeus jamais tiveram sua fé e tradição enfraquecidas. Por todos os lugares onde iam, atravessando mares e continentes, nunca deixaram de rapidamente erguer novas comunidades, sempre trazendo seus rabinos, melamdim (professores de crianças), shochatim (abatedores rituais de animais), mohalim (peritos em realizar a circuncisão), etc., e mesmo depois de se estabelecerem em seus novos lares sempre priorizaram a construção de suas sinagogas e micvaot (banhos para imersão ritual), casas de estudo e escolas.
Isso não foi diferente em Quatro Irmãos. A começar pela visão dos seus colonizadores que, no intuito de salvar a vida dos judeus das perseguições anti-semitas do Velho Continente, vislumbraram um Brasil acolhedor e seguro, não poupando esforços para adquirir as terras necessárias para o estabelecimento da Colônia.
Além disso, podemos constatar o heroísmo e o pionei­rismo dos novos imigrantes através dos relatos do seu dia-a-dia; a luta e o sacrifício que enfrentavam, sem que isto diminuísse o entusiasmo e o sonho de construir uma autêntica vida judaica em pleno solo brasileiro. Aliás, esta harmonia entre camponeses, agricultores, vaqueiros, madeireiros e judeus observan­tes já havia sido pregada e incentivada pelo segundo Rebe de Lubavitch, Rabi Dov Ber Schneuri  (1773 – 1827), que angariava fundos para a colonização de terras pelos judeus oprimidos na Rússia czarista, oferecendo-lhes meios para batalharem por uma vida judaica no campo.
Não podemos nos esquecer de ressaltar o respeito pela tradição e o temor a D’us que também constituíam sua marca registrada, o judaísmo trazido de forma integral de seus lares, os pequenos “shtetels” (aldeias) europeus.
 
(Extraído do prefácio do livro Memórias da Colônia de 4 Irmãos, Editora Maayanot)