Em 1933 na Alemanha nazista a Sociedade Protetora dos Animais era muito forte. Se havia algum cidadão que fizesse um mal para um cachorro ou qualquer outro animal, seria punido imediatamente e obviamente sofreria consequências. Nesta mesma Alemanha fazer mal a um animal era um crime. Mas não no caso do Holocausto contra judeus e outras minorias.

Todavia, perseguir um judeu até D’us nos livre matá-lo e transformá-lo em cinzas ou sabão como sabemos, isso não era um crime. Infelizmente, o nazismo retirou a vida de milhões de inocentes e entre eles 6 milhões de judeus.

A verdade é que passaram mais de 60 anos e o Holocausto começa hoje a ser um pouco esquecido. Existem inclusive aqueles que querem negar a sua existência. Mesmo entre aqueles que reconhecem que houve o Holocausto e que morreram milhões de nossos irmãos, sem querer existe uma banalização do fato.

O próprio fato de falar em 6 milhões está errado, pois com certeza não era um número redondo, pode ser que foram 100 ou 50 mil a mais. O fato de reduzir o número de vitimas e arredondar o número demonstra que as pessoas estão perdendo a noção da gravidade deste crime.

Perseguições sem fim

O povo judeu já passou por muitas perseguições; fomos expulsos da Terra de Israel pelos babilônios, Roma arrasou Jerusalém por completo, os cruzadores a caminho de Israel para livrá-la dos “infiéis” como eles os chamavam, queimaram comunidades judaicas inteiras na Europa.

A inquisição matou muitos inocentes e assim por diante. Mas todos esses mencionados pensavam que pelo menos eles tinham algum motivo para lutar contra os judeus. Era um ódio gravíssimo, mas sua mente estava embasada em algum motivo.

Culpavam os judeus – obviamente de forma mentirosa – de serem cosmopolitas, de envenenarem os poços, e assim por diante. Já o que aconteceu no nazismo foi um ódio sem motivo algum. Foi uma forma de aniquilação fria e sistemática. Uma máquina de matar e de eliminar uma nação inteira. Além disso, todavia, conseguiram paralisar a consciência do mundo e silenciar todas as outras nações; incrível!

Frieza em escala assassina

A frieza dos alemães ao matar os nossos irmãos e a participação ativa de toda a sociedade nisto é assombrosa. Todos sabiam que era possível matar judeus como moscas e ao mesmo tempo ouvir uma música clássica. A consciência e o semblante humano desapareceram e acabaram se tornando um animal.

De acordo com os nosso Sábios, o ser humano possui uma estatura ereta com a cabeça acima do tronco, o tronco acima dos membros inferiores, etc., havendo uma certa hierarquia; a mente, depois o coração e os pulmões, etc. Já nos animais, seu corpo está alinhado de forma horizontal; cabeça, tronco e rabo são iguais.

As bestas do Holocausto

Os nazistas se tornaram bestas por escolha própria, matando friamente e retirando de si totalmente o semblante Divino. Eu mesmo, numa viagem que fiz a Auschwitz e Majdanek fiquei chocado ao entrar num dos barracões em Majdanek que serve de exposição. Lá tinha várias papeladas e documentos nazistas. Entre eles havia o original de um convite para os guardas da SS que matavam no campo para um baile e festejar a noite. Ou seja, de dia eles matavam os judeus sufocando com gás e os cremavam, e à noite dançavam num baile.

O pior é que os alemães mantinham uma contabilidade exata de quantas pessoas mataram. Sabiam quantos comboios vieram e de onde chegavam. Sabiam, além disso, da data de nascimento das pessoas, de onde eram originários, quanto cabelo isso ia dar, quantos dentes de ouro, quantos quilos de gordura, e assim por diante, incrível!

Não dá para entender como conseguiram criar aquele “bacilo judaico”, que tem de ser totalmente exterminado e eliminado da sociedade. Isto na palavra de nossos Sábios nos lembra sem dúvida o nosso arquiinimigo que é povo de Amalec que odeia o povo judeu sem motivo, como foi dito (Bereshit Rabá 78:9) que Essav odeia Yaacov.

Prova inconteste de antissemitismo

Não há motivo algum; é o antissemitismo por excelência. Aquele anti-semita que mesmo se o judeu não existisse, ele iria inventá-lo só para poder saciar sua sede de sangue e de matança. Esse tipo de antissemitismo não tem lógica. Em alguns lugares fomos acusados de que os judeus são diferentes, como na Polônia que os judeus se vestiam com roupas compridas e barbas. Já na Alemanha diziam que odiavam os judeus porque eram iguais a eles sem barba e com a mesma forma de vestir.

Em outro lugar na França podia se dizer que odiavam os judeus por estarem na terra dos outros. Em Israel nos odeiam por estarmos em nossa terra. Argumentos contraditórios, ilógicos e sem sentido. Mas os nossos Sábios nos dizem que quando se trata de Amalec, devemos nos lembrar e nunca se esquecer do que fizeram. Nas palavras da Torá (Deuteronômio 25:17): “Zachor et asher assa lecha Amalek” – “Lembra-se do que lhe fez Amalec”.

Entender o Holocausto não é páreo para a compreensão humana

O Holocausto transcende a nossa compreensão. Não há possibilidade de explicar e entendê-lo. Aqueles que tentam explicar como se fosse um castigo dos Céus estão errados. Pois não existem pecados tão grandes que mereçam e justifiquem o Holocausto e que mereça a morte de 1 milhão e meio de crianças inocentes. Não há possibilidade para o ser humano entender o Criador; o finito não alcança o Infinito. Como diz o Profeta (Isaías 55:8): “Ki lo machshevotai machshevotechem velo darchechem derachai” – “Os caminhos e pensamentos de D’us não são os nossos caminhos e pensamentos”. Por esta razão não podemos apreender a Contabilidade Divina.

Por outro lado, questionar o Holocausto apenas demonstra que nós mantemos a nossa fé. Assim, portanto, afirmamos que acreditamos num D’us único. Ele é realmente a Autoridade máxima e o Arquiteto do Universo. Já que não entendemos os Seus caminhos, por isso questionamos como foi possível isso ter acontecido.

Aquele homem que é desprovido de fé, que é um verdadeiro agnóstico não tem perguntas; para ele tudo foi uma mera coincidência, um acidente da natureza.

O fato de questionar significa que nos incomoda, o que demonstra a grande fé que nós possuímos. Aliás, já o primeiro judeu Abraão que foi o ícone da fé judaica e que deu essa fé de herança para o nosso povo, chamados de “maaminim benei maaminim” – “crentes filhos de crentes” (Shabat 97a), já questionou o próprio D’us dizendo (Gênesis 18:25): “Hashofet col haarets lo yaassê mishpat?” – “Será que o Juiz de todo o Universo não fará justiça?”.

Uma história elucidativa

Conta-se que durante a Inquisição, um judeu com sua família conseguiu escapar das perseguições de Portugal. Após muito esforço e dificuldades, conseguiu embarcar junto com seus filhos e esposa num navio clandestino. Fugiram então da Península Ibérica a caminho da Grécia e da Turquia.

Na viagem enfrentaram o mar revolto. Estavam avançando, mas quando finalmente estavam quase chegando, uma violenta tempestade atingiu seu navio. O mar turbulento com ondas fortes fez seu navio naufragar. Na sua frente, sua esposa e filhos foram para o fundo do mar e se afogaram.

Ele perdeu os seres mais queridos de sua vida que com muito custo conseguiu salvar das garras da Inquisição. Com muita dificuldade se agarrou a um pedaço de madeira e nadou em direção a uma ilha. Assim, de repente ergueu os olhos para os Céus e disse: “D’us, o Senhor já me retirou muita coisa. Perdi minhas propriedades, meus bens, perdi tudo o que tinha em Portugal e agora o Senhor retirou minha família, esposa querida e filhos maravilhosos, tudo! Mas uma coisa o Senhor não irá conseguir retirar: a minha fé. Apesar de tudo eu continuo com uma fé forte. Perguntas e questionamentos eu tenho, mas minha fé permanece intacta”. Esta é a melhor resposta judaica para o nazismo.

Fé judaica permanece intacta

A melhor vingança – se é que podemos nos expressar assim, apesar de não sermos um povo vingativo –, é que a fé judaica permaneça intacta. O povo de Israel continua com seu idealismo, com sua busca pela moralidade e pela ética e na prática de Torá e mitsvot. Assim é em todas as comunidades de Israel florescendo pelo mundo afora, desde a Terra Santa ate a diáspora. Esta é a nossa resposta: manter a nossa fé fantástica inata e preservada em todo judeu, apesar das perseguições e das matanças, das tragédias e das catástrofes.

A geração pós dilúvio, preocupados com todos que faleceram antes deles, queriam fazer um monumento para lembrarem esses falecidos. Esse monumento ficou conhecido como a Torre de Babel.

Nós sabemos que isso foi negativo e prejudicial. A forma de lembrar os falecidos não é apenas através de um monumento frio, uma edificação de pedras, mas sim através de pessoas que trilham o caminho de seus predecessores justos, ou através de pessoas que consertam e reparam os erros dos antepassados. Esta é a forma judaica de se pensar. Não apenas pedras e madeiras, monumentos frios, mas pessoas vivas de corpo e alma que servem ao Criador e continuam a pensar em como melhorar a humanidade.

Lembrar sempre!

Claro que é bom que tenha museus que lembram o que foi o Holocausto, afinal precisamos saber o que aconteceu, mas o mais importante ainda é investir em pessoas vivas que possam cumprir o “Zachor” – “Lembra-se do que lhe fez Amalec”. Por isso é de grande louvor essa iniciativa de levar jovens para visitar campos de concentração.

Trazer judeus vivos das gerações pós Holocausto ou talvez até filhos e netos de sobreviventes. Principalmente jovens que vão voltar para os campos de extermínio vendo in loco o que aconteceu, mostrando que o povo judeu existe, que a tradição continua e que a fé é inabalável dentro de pessoas vivas; am Israel chai – o povo de Israel vive!

Kedoshim = Mártires

De acordo com nossa tradição, todos os nossos irmãos falecidos no Holocausto são chamados de kedoshim – santos mártires. Sem dúvida esta iniciativa é bem louvável e de grande importância, pois os jovens que voltam para lá numa marcha como esta, percorrem o caminho desses justos falecidos e quando passam por lá e vêem as atrocidades que os nossos irmãos passaram (ou pelo menos uma parte, porque infelizmente só aqueles que passaram por lá sabem o fundo do poço, os outros não sabem), logo se sensibilizam com seu passado no âmago de suas almas.

Isso reforça os laços das gerações atuais com as gerações passadas. Ajuda a incrementar o idealismo dos jovens e sua vontade de continuidade. Também, pois, dão uma força e incentivo a mais para aderir a uma prática e um comprometimento maior do Judaísmo.

Esperamos que logo, logo possa chegar a época quando o homem não mais procurará as armas. Assim como diz o Profeta Isaías (2:4): “Lo yissá goi el goi cherev velo yilmedu milchamá” – “Não se levantará mais uma nação a sua espada contra a outra e não aprenderão mais a guerrear”, e o mundo inteiro será então repleto do conhecimento de D’us, com paz e harmonia, como ele ainda diz (11:9): “Umaleá haarets dea et Hashem camayim layam mechassim” – “O mundo será repleto do conhecimento de D’us, assim como o mar é cheio de águas”.

(Extraído do prefácio do livro Marcha da Vida – Editora Opeco)

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