Durante décadas, ir ao “770”, quartel-general do Movimento Chabad-Lubavitch, significava se encontrar com o Tsadik para pedir conselhos, tirar dúvidas, receber bênçãos, admirar de perto seu dinamismo, coragem e energia. Era desfrutar dos seus ensinamentos e milagres revelados, vê-lo movimentar o braço vigorosamente, arrancando as mais profundas melodias do âmago dos chassidim, estimulando maiores esforços na dedicação ao próximo. Era enfrentar longas e longas filas para ganhar um singelo, porém significativo dólar como incentivo à tsedacá. Ouvir chassidut, participar de um farbrenguen durante horas a fio. Constatar pessoalmente sua dedicação ao povo judeu e à humanidade, em dias e noites sem fim, durante anos ininterruptos de volumosa correspondência e lições da Torá. Ir ao “770” era, enfim, se engajar nas campanhas em prol de um judaísmo mais vibrante e ativo. Era “recarregar as baterias espirituais”…
Hoje, se a situação, por um lado, mudou, por outro ela continua rigorosamente a mesma. O Alter Rebe, Rabi Shneur Zalman de Liadi, em uma de suas obras, o Tanya, cita os dizeres do sagrado Zohar (III:71b): “O tsadik que parte deste mundo está presente em todos os mundos mais ainda do que durante sua vida”. Quer dizer, o Rebe nunca esteve tão presente como agora! Já que venceu as barreiras do mundo físico, o Rebe se encontra mais próximo de todos nós. E não me refiro apenas aos seus escritos, legados, ao exemplo de como ser judeu ou às palavras que nunca se equivocaram. Na verdade, o Talmude (Taanit 5b) diz que o patriarca Yaacov não faleceu: “Visto que sua descendência está viva e atuante, ele também vive.”
O Rebe agia em diversos lugares ao mesmo tempo, influenciando pessoas, judias ou não, nas mais variadas situações. Histórias com nomes, sobrenomes e cidades. Tudo absolutamente verídico e averiguável.
As histórias do Rebe revelam um painel multifacetado da liderança do Rebe e os diferentes ângulos de sua personalidade única, expondo a relação de extrema confiança que permeia cada narrativa. Aliás, um dos principais aspectos das histórias é justamente sua abrangência. Se citarmos apenas uma particularidade das características do Rebe, como os milagres que faz, os avisos que dá ou sua erudição, estaremos distorcendo sua imagem, reduzindo-a às qualidades citadas. Porque todo aquele que conviveu com o Rebe possui uma forma peculiar de descrevê-lo, mas sabe que sua visão é limitada e que sempre há algo mais grandioso que simplesmente não consegue relatar. Mesmo assim, através da variedade de histórias, fica possível apreender uma dimensão mais ampla sobre ele.
Afinal, histórias são dinâmicas e intensas, em contraste com a biografia, que é a análise fria e intelectual da vida de determinada pessoa. Na história, os acontecimentos assumem outra proporção e transpiram vitalidade. Biografias trazem conclusões prontas e explícitas; histórias permitem que o leitor as tire.
Essas histórias nos proporcionam uma pequena olhadela na incrível firmeza e no vigor de um homem que ousou mudar o mundo. Aquele que, durante quarenta e quatro anos de liderança devotada, nunca, jamais, tirou um dia sequer de férias. O Rebe estabeleceu mais de três mil instituições humanitárias e sinagogas espalhadas pelo mundo inteiro, sem se esquecer, porém, que tal mudança devia ocorrer em uma pessoa de cada vez, boa ação por boa ação.
A sua extraordinária criatividade, erudição e espiritualidade, emolduradas por suas engenhosas inovações, inspiraram, e continuam a inspirar, a centenas de milhares.
Descrever este que irradiou tão brilhante luz e acendeu as chamas judaicas latentes de tantos é tarefa difícil, quase impossível. Conforme as palavras do Rebe com referência ao seu sogro, o Rebe Anterior, “Você não faz ideia do que seja um Rebe. A carta e o telegrama não precisam ser entregues para que o Rebe saiba do assunto. E a resposta do Rebe não precisa chegar, para que você a receba”.
 
(Extraído do prefácio do livro Conhecer e Cuidar)