O grande mestre Baal Shem Tov diz: “a memória é a raiz da libertação, assim como o esquecimento é a raiz do exílio”. Por isso neste dia em homenagem às vítimas do Holocausto só é permitido lembrar e jamais esquecer.

Nós somos portanto um povo sensível que chora e recorda o nossos falecidos, principalmente os seus mártires. Seja no Yizcor ou no Yom Hashoá, recordamos pois nós acreditamos que quem tem passado tem futuro garantido.

Nobre foi a iniciativa da ONU de ter instituído pois o dia internacional em memória às vítimas do Holocausto. Ou de modo ainda mais simplificado, dia em homenagem às vítimas do Holocausto.

Assim, tomando o que diz então o famoso autor contemporâneo Elie Wiesel, ele mesmo um sobrevivente do Holocausto: “esquecer os mortos é morrer duas vezes”.

Sequência de perseguições

O povo judeu já passou por varias perseguições: os babilônios nos expulsaram de Israel, os romanos arrasaram Jerusalém, as cruzadas queimaram inúmeras comunidades de “infiéis” na Europa, os inquisidores torturaram “gente da nação” em Portugal e na Espanha, etc.

Todavia, todos estes achavam erroneamente que tinham bons motivos, devido ao ódio que alimentavam: eram épocas de guerras, nos acusaram de cosmopolitismo, de envenenar os poços d’água e assim por diante.

Com os nazistas, porém, as coisas são diferentes; não tinham motivos. Os judeus estavam na vanguarda da Alemanha, um país tão desenvolvido em termos de filosofia e tecnologia.

E de repente, sem motivo, com frieza, sem compaixão, o estado nazista se tornou uma máquina de aniquilação, perseguições às minorias; judeus, ciganos, negros, esquerdistas, humanistas, liberais, deficientes, etc.

A consciência universal ficou paralisada e o semblante Divino do ser humano desapareceu, para dar lugar à besta nazista que prende, maltrata, deporta, massacra, asfixia e crema.

Seis milhões de judeus transformados em cinzas. 67% do judaísmo europeu. Havia na Europa 1 milhão e 600 mil crianças judias e 1 milhão e 500 mil foram massacradas.

Na Polônia, de onde sou oriundo, havia antes do Holocausto 3 milhões de judeus e desses, nem 250 mil sobreviveram, pois 93% foram exterminados.

Requinte de crueldade

Como se não bastasse, tudo isto foi feito com frieza, desinteresse, numa insensibilidade total.

Assim, matavam judeus como moscas, ao som de música clássica. Os soldados da SS conviviam enfim com a morte 24 horas por dia e não se impressionavam o mínimo.

Raspavam cabelos de mulheres mortas que ainda abraçavam seus filhos para fazer escovas, arrancavam dentes de ouro dos que ainda tinham o hálito quente.

Abriam as entranhas dos cadáveres e procuravam por jóias e depois ainda relaxavam com lazer.

No ano passado eu fui convidado pela FISESP para servir de guia para um grupo de líderes comunitários aos campos de concentração.

Quando chegamos aos barracões em Majdanek, que hoje servem de museu havia alguns documentos expostos e notei um convite em alemão para os guardas do campo para um baile à noite. Ou seja, de dia sufocavam e matavam e à noite então dançavam e comemoravam no baile.

O pior de tudo é que os nazistas, com sua obsessão germânica por organização minuciosa, registraram uma impressionante contabilidade da morte: quantos judeus foram assassinados, quantos ciganos, que dia, donde vieram, em qual comboio, quantos rolos de cabelos para encher cobertores, quanto ouro, quanta gordura humana transformada em sabonetes.

Deixo bem claro sabonetes, sim, pois judeus foram transformados em sabonetes de gordura humana com as inscrições RJF “Rain Juden Fet”.

Impossível ignorar o Holocausto

Tudo isto comprova que nada pode ser comparado pois à tragédia do Holocausto; um programado genocídio sem precedentes. Nunca houve coisa igual de tamanha barbaridade, onde morreram tantos inocentes e ainda desta maneira.

Não podemos permitir de jeito nenhum que certos elementos sem escrúpulos neguem ou banalizem o Holocausto. Sobretudo neste dia em homenagem às vítimas do Holocausto devemos hastear a bandeira da lembrança.

A história não pode ser mudada e se D’us quiser, jamais se repetirá tamanha ignobilidade.  Por isto, fiquei contente de ouvir do Presidente da República, o excelentíssimo Senhor Luiz Inácio Lula da Silva, numa cerimônia igual a esta o ano passado no Rio de Janeiro, declarar de alto e bom som a todos: “temos a responsabilidade e o dever de transmitir para todas as gerações que o antissemitismo, o racismo e a intolerância atentam contra a dignidade humana e todos os valores profundos e sagrados da nossa civilização”.

Sim, para nós esta é uma declaração importante e de peso, e satisfaz a nossa comunidade e deixa ela se sentir bem e segura nesse país tão acolhedor.

País que é um exemplo de convivência harmoniosa entre as diferentes etnias e diferentes credos. Muito obrigado Senhor Presidente Lula e seu prestigioso governo por esta oportuna declaração; muito obrigado Brasil.

Muito obrigado também pelos Justos brasileiros que colocaram sua vida em risco para salvar judeus no regime nazista: Souza Dantas e Aracy Guimarães Rosa.

Contamos em dobro

Hitler e Eichman e seus asseclas planejaram a solução final para o povo judeu. A ideia era eliminá-lo por completo da face da terra. No entanto estamos aqui, vivos e ativos com nossos costumes e tradições.

O Rebe de Lubavitch disse que no Holocausto o povo judeu foi dizimado tão violentamente que agora cada um de nós deve contar em dobro.

Muitos sobreviventes e filhos de sobreviventes encontraram refúgio nesta parte do mundo. Encontra-se nesta Sinagoga homens e mulheres que sobreviveram às câmaras de gás. Também aqueles que se salvaram das marchas da morte e dos fuzilamentos. Sem esquecer até os que escaparam das garras do carrasco nazista Mengele ימ’’ש.

D’us os poupou milagrosamente para eles servirem de exemplo e inspiração para nós. Assim, eles poderiam contribuir para um mundo melhor e mais justo. E é esse um dos papéis desse dia em homenagem às vítimas do Holocausto. Tornar propício uma reflexão profunda sobre o tema.

Assim como Fernando de Noronha, o primeiro arrendatário no Brasil, Caramuru colonizador do Norte, João Ramalho colonizador do Sul, Fernão Dias, Bento Teixeira e outros cristãos novos, todos eles descendentes de judeus que contribuíram para o desenvolvimento deste país, assim também estes heróis do Holocausto vieram para o Brasil para somar forças.

A força do dia em homenagem às vítimas do Holocausto

Termino meu discurso com as palavras de Yossel Rakover. Trata-se de um judeu polonês que lutou no levante do Gueto de Varsóvia e lá morreu. Acharam suas últimas palavras numa garrafa de coquetel molotov após a guerra:

“D’us, estou quebrado e arrasado, mas não desesperado. Meus pais e meus irmãos foram todos fuzilados na minha frente.

Dos meus dez filhos, seis foram brutalmente massacrados e quatro morreram de fome.

D’us, o Senhor me tirou tudo o que eu tinha; bens e propriedades, minha dignidade, meus pais e minha família. Mas tem uma coisa que o Senhor não conseguiu e nem conseguirá tirar de mim, que é a minha fé em Ti. Morro com minha fé intacta, sólida como uma rocha”.

Senhores e senhoras, este é o povo do qual nós pertencemos. Enfim, o povo que acredita num futuro melhor e no fantástico potencial do ser humano. O povo que soube pois se erguer das cinzas do Holocausto. Hoje, nesse dia em homenagem às vítimas do Holocausto, podemos nos orgulhar disto então.

Estamos aqui para fazer o bem e contribuir para o progresso deste “florão da América”. Aqui nós implantamos instituições para carentes e deficientes, hospitais, refeitórios comunitários e lares para idosos que atendem a toda população necessitada, sem distinção alguma.

Obrigado Brasil igualmente por nos oferecer esta oportunidade; obrigado Senhor Presidente Lula por nos permitir dar então continuidade à nossa longa tradição de fé e beneficência.

(Discurso proferido na Sinagoga Beit Yaacov em 27 de Janeiro de 2009)

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