Nos anos 1996/97 eu fui convidado pelo clube “A Hebraica” para proferir um ciclo de palestras destinado aos seus associados. Na época, achei oportuno demonstrar o lado humano da Torá e de nossos Sábios. Foi então organizado um ciclo de palestras intitulado “A Arte de Ser Mais Gente”. Foram 16 palestras abordando os traços nobres de caráter (midot tovot) que o Judaísmo preconiza através da sua Lei Escrita e Oral.
Escolhi este assunto, pois percebi nas conversas pessoais e aconselhamentos que havia uma grande busca por temas deste gênero. Doía-me ver que as referências eram sempre livros de auto-ajuda e auto-estima escritos por psicólogos e autores modernos que desconheciam totalmente as fontes judaicas. Muitos dos princípios corretos defendidos pela psicologia moderna já constavam nos ensinamentos de nossos Sábios há dois milênios. Então achei oportuno disseminar esta grande sabedoria milenar que trata da psicologia e do comportamento humano.
Não há dúvida de que as receitas talmúdicas antigas são capazes de resolver muitas frustrações e conflitos e, melhor ainda, prevenir para que não aconteçam. As nossas avós e bisavós viviam com menos recursos e em situações precárias de guerras e perseguições, e mesmo assim tinham vidas mais saudáveis e felizes. Graças às receitas bíblicas, místicas, etc., lidavam com facilidade com problemas de medo, angústias, relacionamentos e fobias. Então chegou a hora de voltar às receitas antigas, conforme o versículo “Chadêsh yamênu kekêdem” — “Renove nossos dias como outrora” (Lamentações 5:21).
Diversas palavras dos nossos Sábios da literatura do Talmud (da Babilônia e de Jerusalém, Midrashim, etc.) e do Misticismo Judaico (Zôhar, Arizal, Tanya, etc.), bem como narrações bíblicas e histórias chassídicas ilustram o que o Judaísmo define como humildade, honestidade, discrição, bondade, generosidade, etc.
Existem centenas de palavras de nossos Sábios espalhadas no imenso oceano do Talmud e várias explicações na literatura dos comentários clássicos (Rishonim), contemporâneos (Achronim) e dos Sábios da Cabalá, Chassidut e Mussar (Ética).
Não há dúvidas de que parte essencial do Judaísmo é adquirir boas virtudes de caráter e personalidade (Tikun HaMidot). O Baal Shem Tov já dizia: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo é uma explanação do versículo ‘Amarás ao Eterno teu D’us’”. Todo estudo teórico no Judaísmo deve levar a uma prática de boas ações. O Rebe Maharash disse uma vez: “Qual é o valor da Chassidut e temor a D’us, se falta o principal, que é o amor ao próximo; e, pior ainda, quando se causa dor ao outro?”.
Traços nobres de caráter foi o que o Patriarca Avraham buscou ao procurar uma esposa para seu filho Isaac. Quando Rebeca ofereceu água não apenas para Eliezer, mas também para seus camelos, então se soube que ela era adequada para o Patriarca Isaac. A verdade é que Avraham não priorizou as convicções intelectuais, pois tanto as moças de Canaã como a família de Rebeca eram idólatras; então, qual é a diferença entre elas? Os canaanitas tinham seu caráter corrompido, enquanto Rebeca tinha um bom coração. Sendo assim, vemos o quanto isto pesa no Judaísmo desde os seus primórdios.
No mundo animal também existem midot — virtudes de comportamento —, mas elas fazem parte da natureza inata do animal. Por exemplo, a águia tem piedade, o corvo é cruel, o cachorro é fiel, etc. Todavia, as midot do ser humano dependem do intelecto, e não apenas do seu ambiente e nascimento. D’us foi bondoso conosco, fazendo com que fôssemos capazes de moldar nosso caráter e personalidade, através de estudos e aprofundamento, e de uma reflexão sincera (Sêfer HaMaamarim 5710, p. 88).
Maimônides, o grande filósofo, escreveu em seu Códex (Leis de Comportamento, cap. 1 e 2), bem como em sua introdução à Ética dos Pais (Os Oito Capítulos, cap. 4), uma recomendação sobre as virtudes e os defeitos do caráter humano. Trata-se da perspectiva de um grande erudito, profundo conhecedor do Talmud e notável conhecedor do corpo humano. Esta particularidade projeta uma luz especial sobre o assunto. Maimônides nos ensina que de acordo com a filosofia judaica existe um caminho mediano, o caminho de ouro, entre dois extremos. Ele prossegue dizendo que, enquanto as extremidades são negativas, o caminho mediano é o caminho correto que devemos seguir.
A título de exemplo, a virtude da generosidade é o caminho do meio entre a avareza, em um extremo, e o esbanjamento, no outro; ambas sendo características indesejáveis. A alegria e a felicidade são qualidades nobres que se encontram entre dois defeitos extremos: a tristeza e a depressão, por um lado, e a euforia demasiada, por outro. Sempre haverá dois extremos para cada virtude. Continua Maimônides que uma pessoa extremamente avarenta, quando decide mudar sua conduta, deverá primeiramente pender para o extremo, esbanjando em demasia, e somente depois, paulatinamente, conseguirá alcançar o equilíbrio da generosidade. Da mesma forma que procedemos para desentortar uma barra de ferro que está torcida para um lado: é necessário que forcemos para o lado oposto para só então devolvê-la à posição correta.
Exceto para a humildade e a tranqüilidade, que Maimônides recomenda pender um pouco para o extremo inferior (rebaixamento e apatia), em geral o grande Mestre recomenda o caminho mediano. Quem se distanciar do comportamento nobre do caminho de ouro por algum motivo e percebe que deve se corrigir, deverá pender para um extremo oposto e depois alcançar o equilíbrio ideal.
O grande objetivo deste livro é mostrar através das centenas de exemplos que os traços de caráter nobres são algo alcançável, e não apenas utópico. Fiz questão de acrescentar às narrações bíblicas também histórias chassídicas mais recentes, para que não pensemos que estas atitudes exemplares eram vigentes apenas em outra época bíblica, não sendo aplicáveis às nossas gerações.
É claro que ninguém pode se comparar aos grandes Tsadikim, que, com suas façanhas milagrosas e suas bênçãos, salvaram e ajudaram tanta gente. Os milagres e as maravilhas que fizeram atestam a grandeza desses mestres, mas não serve de lição para nós. Os traços nobres de caráter que eles se esforçaram para adquirir, estes sim podemos emular. Pode ser que nunca alcancemos a capacidade de realizar milagres, mas nós todos temos a capacidade de ficar mais espiritualizados e de refinar os nossos traços de caráter.
Assim diz o dito chassídico: ‘quando uma pessoa repreende a si mesma, ela pode fazê-lo em voz alta’, esperando que possa servir de inspiração e motivação para os demais ouvintes (leitores). Rogo a D’us que traga brevemente, em nossos dias, a época na qual Ele fará com que nossos corações evoluam (Deuteronômio 30:6), para servi-Lo de todo nosso coração e com todo nosso ser, Amên.
 
(Extraído do prefácio do livro A Arte de Ser Mais Gente)

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