A condição de criptojudaísmo (ou conversos; anussim em hebraico) refere-se a alguém que foi batizado à força. Ou então sob ameaça de morte, porém observa as tradições e o comportamento judaico secretamente.

Muitos convertidos batizados à força são chamados de cristãos-novos, uma vez que continuaram a praticar o Judaísmo às escondidas. O termo “marrano” é geralmente usado para designar cristãos-novos. Contudo, não é nada elogioso para os judeus, pois significa “porco” em espanhol.

Em geral, costuma-se dizer que o criptojudaísmo (ou marranismo) nasceu na Espanha em 1391. Era um período em que muitas comunidades judaicas foram perseguidas. Assim, muitos inocentes foram massacrados e muitos judeus pois morreram santificando o nome de D’us.

As crônicas judaicas da época, como Shevet Yehudá (de Shlomo ibn Verga)e os historiadores, falam de muitos judeus que se converteram ao Cristianismo. Porém, esses judeus praticavam seu Judaísmo na clandestinidade. Esse batismo era aceito como escape da vingança popular. Ele permitia portanto que as prerrogativas antigas fossem mantidas, principalmente as vantagens materiais e as profissões lucrativas.

Todavia, esse comportamento de criptojudaísmo já acontecera antes na história (em escala menor). Apenas a título de exemplo, na própria Espanha, no século VII, após a conversão do rei Recaredo ao Catolicismo e a sua missão de cristianizar a Espanha, houve judeus que simularam abraçar a fé cristã, mas secretamente preservavam os rituais e os costumes judaicos.

Também na época dos Cruzados, no século XI, quando muitas comunidades judaicas em torno do rio Reno foram destruídas (muitos morreram no martírio e muitas mulheres e crianças sofreram atrocidades), houve um grupo de judeus que se converteram pró-forma, sendo batizados à força, mas continuando a praticar o Judaísmo clandestinamente.

Histórias de criptojudaísmo

A conversão forçada que impulsionou os conversos judaizantes não aconteceu pois apenas no mundo cristão.

No século XII, uma seita muçulmana fanática, os almôades, obrigou várias comunidades do Mediterrâneo a aceitar o Islã como sua religião e Maomé como seu profeta sob pena de morte. O próprio Maimônides teve de fugir com sua família da Espanha para o Marrocos por causa da coação dos almôades.

Na cidade de Fez, encontrou muitos judeus convertidos pró-forma ao Islã, mas praticantes do Judaísmo secretamente. Foi lá que ele compôs sua famosa epístola sobre apostasia (Iguéret Hashmad), onde reconforta e encoraja esses anussim.

O denominador comum em todas essas histórias de perseguições é que não se consegue apagar o Judaísmo do próprio judeu. Uma vez que o judeu está ligado com o seu Judaísmo de forma intrínseca, e o Judaísmo é um legado Divino, sinônimo de eterno, fica o judeu eternamente ligado a esses ensinamentos e não consegue se separar deles.

Isso explica o fato de que, mesmo centenas de anos após a expulsão da Espanha, ainda encontramos na Península Ibérica novos cristãos de quarta ou quinta geração que arriscam suas vidas com comportamentos secretos judaizantes sabendo que, se isso chegar aos ouvidos da Inquisição, pagarão com as suas vidas, como foi o caso do  capitão-mor Miguel Telles da Costa, de Paraty.
(Extraído do prefácio do livro Miguel Teles da Costa, Editora Maayanot, S. Paulo)

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