Os nossos Sábios ensinam que apenas dez canções foram compostas para D’us (Yalkut Shimoni, Yehoshua 20). Entre elas encontra-se o Cântico dos Cânticos considerada de elevada estatura.

De todos os salmos de David, de todas as visões dos profetas e das miríades de louvores espontâneos, compostos e entoados por milhões de judeus, apenas dez fizeram jus ao título de canção.

Entre eles, verificamos a Canção de Moisés, a Canção do Poço, a Canção de Haazinu, a Canção de Salomão e a canção que cantaremos por ocasião de nossa saída deste exílio.

E das canções citadas, somente a de Salomão, por ser a mais elevada, é denominada Cântico dos Cânticos. Uma canção sublime que, segundo Rabi Akiva, é Kodesh Kodashim, Sagrado dos Sagrados. Assim, o mundo nunca foi tão merecedor quanto no dia em que o Shir HaShirim foi dado ao povo judeu (Talmud Yadaim, cap. 3; Shir HaShirim Rabá 1:11).

O Talmud (Sanhedrin 94a) relata que D’us desejava apontar o justo Rei Ezequias como Mashiach. Isso em razão de seus inúmeros feitos, mas, uma vez que o rei não cantou louvores pelos grandes milagres que presenciou, o ideal messiânico não foi realizado.

Já o Rei Salomão, filho de David — o cantor por excelência —, soube cantar. E o Cântico dos Cânticos é, certamente, prova disso. Aparenta ser uma canção de amor, mas não de um amor que um ser humano possa sentir por outro, senão de um amor entre o homem e seu Criador.

O Rei Salomão compôs o Shir HaShirim em forma de alegoria. Há um diálogo apaixonado entre o Esposo (D’us), que ainda ama sua esposa banida (o povo de Israel). Esta, portanto, como cônjuge, deseja ser novamente querida por Ele. Assim, poderá recordar o amor que ela Lhe tinha na juventude.

Para produzir obra tão notável, o Rei Salomão baseou-se nos profetas. Isso porque lá se compara, freqüentemente, tal relação àquela de um marido amoroso, porém melancólico pelo fato de ter sido traído.

Com sua clarividência Divina, Salomão imbuiu as palavras desta alegoria da própria saga do povo judeu. Assim, pois, vemos desde o seu nascimento até a época messiânica. De fato, simplório é aquele que somente pode enxergar no Cântico dos Cânticos um mero “love story”.

Interpretar o texto literalmente é deturpá-lo, pois o Cântico dos Cânticos representa apenas uma roupagem literária para o significado Divino profundo e esotérico impregnado no texto.

O próprio uso da alegoria demonstra que a santidade de sua real acepção transcende a compreensão humana. Assim, torna-se necessário carecer da mais básica instrução para dar à alegoria significado independente.

Isto demonstra quão necessário é estudar o Cântico dos Cânticos munido dos diversos comentários e interpretações dos sábios judeus.

Referências marcantes do Cântico dos Cânticos

Outra prova da santidade excessiva e das várias profecias que permeiam o Shir HaShirim pode ser encontrada no Zohar:. Lá está escrito:“O Rei Salomão foi inspirado a compor a obra no dia em que o Templo Sagrado foi construído. A princípio, o dia de maior alegria para o Eterno, desde a criação do Universo.”

Assim, não foi um mero acaso Rashi ter afirmado que o Cântico dos Cânticos está repleto de temor a D’us e aceitação do jugo Divino (Shir HaShirim 1:1).

Os sábios ensinam (Shir HaShirim Rabá 1:9) que quando Salomão foi abençoado com a sabedoria, ele agradeceu a D’us com inúmeras oferendas. Disso se aprende que ao terminar o estudo de uma porção da Torá, deve-se comemorar com uma festa.
Que a revelação da sabedoria salomônica seja um passo decisivo para apressar a revelação da sabedoria Divina. Então, seguirá par e passo conforme o versículo que descreve a era messiânica. E neste versículo lemos: “… a terra estará cheia do conhecimento de D’us, como as águas cobrem o mar.” (Isaías 11:9).

(Extraído do prefácio do livro Cântico dos Cânticos)

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