Antes de falar mais diretamente sobre o assunto de atentados cometidos por jovens, preciso lembrar que na sexta-feira passada ocorreu a festa judaica de Shavuot. Comemoramos os 3311 anos do recebimento da Torá (Pentateuco) no Monte Sinai.

Os judeus, como de costume, estavam se preparando para ir à sinagoga ouvir, mais uma vez, a leitura dos Dez Mandamentos.

Mas, de repente, nos deparamos com manchetes de jornais que anunciavam que outra criança, agora em Atlanta, abrira fogo contra os seus colegas de classe.

É absolutamente chocante. Justamente quando a comunidade se preparava para receber o Decálogo, base moral da sociedade, tomamos conhecimento de um ato desumano, que desafia todas as leis e a própria lógica.

E nem chegava a fazer um mês do triste episódio em Columbine High School, Denver, onde dois jovens executaram seus colegas e tentaram explodir a escola após meses de intensos preparativos.

Além disso, aqui no Brasil, as apreensões de armas nas escolas vêm se tornando perigosamente frequentes.

Dias atrás duas bombas explodiram em um colégio estadual em Diadema. Mais um caso de atentados cometidos por jovens.

Afinal, o que está havendo? O momento exige reflexão. Onde foi que a sociedade errou para gerar elementos tão frios e insensíveis?

A esperança que nos traz Shavuot

Quem sabe o dia de Shavuot, a outorga da Torá, possa nos inspirar.

O texto talmúdico (Midrash Cântico dos Cânticos) relata que antes de o Todo-Poderoso entregar a Torá ao povo judeu,

Ele perguntou quem seriam os fiadores que garantiriam o cumprimento das leis. O povo respondeu: “Senhor do mundo, nossos patriarcas constituem a nossa.fiança e nossos profetas são os nossos avalistas.”

D’us recusou a proposta.

Mas quando o povo disse: “Nossos filhos são a nossa garantia!”, aí sim D’us finalmente concordou.

Podemos observar claramente que foi graças ao mérito das crianças, puras e sinceras, que o Decálogo, fundamento de qualquer sociedade, pôde ser revelado.

Alicerces para evitar atentados cometidos por jovens

De fato, as crianças nascem sem qualquer pecado. Mas, ao crescerem, precisam se tornar os alicerces de uma sociedade ética e saudável. Já dizia o salmista, “Das bocas dos bebês e crianças de peito Tu estabeleceste força… para silenciar adversário e vingador.” (Salmos 8:3).

Todavia, crianças que se sentem rejeitadas podem causar danos irreversíveis à sociedade. Assim, atentados cometidos por jovens, por essa lógica, não é de se estranhar.

Quando uma criança sabe que não é querida. Ou quando cresce em um lar carente de amor e afeto,. Ou mesmo quando pais não hesitam em contar aos filhos que eles não foram “planejados”. Ou então que a sua chegada atrapalhou seus planos. Cada uma dessas coisas traz tristes consequências.

Quando filhos têm de trocar a atenção dos pais por uma tela de tevê e sabem ser possível substituir a mãe natural por outra de aluguel e passam noites inteiras navegando em uma internet desprovida de censura, não devemos nos enganar: estes jovens se tornarão seres inseguros e temerosos, com ódio e desprezo pelas pessoas e, por que não dizer, pela humanidade.

O que aconteceria se crianças assim, decepcionadas com a vida, sentindo-se fardos para as famílias e com sede de vingança contra a sociedade que lhes impôs uma vida de desespero e baixa- estima, vissem ‘surgir nos seus monitores os dizeres “Aprenda a preparar uma bomba caseira na sua própria cozinha em duas lições!”?

O uso de ambas as mãos: chessed e guevurá

O Talmud ensina que a mão direita aproxima e a esquerda disciplina.

Em matéria de educação, é necessário utilizar ambas as mãos. Isto deve se traduzir em lares calorosos e unidos, onde a criança percebe que faz parte de algo importante e sabe que é bem-vinda. E, convenhamos, se sentir bem vindo poderá evitar tragédias de atentados cometidos por jovens.

Lares que não abdicam, porém, da disciplina e que ensinam o jovem a acatar a sempre antipática palavra “não”.

Já que a tecnologia isenta de moral não produz pessoas melhores, é nossa obrigação suprir essa lacuna com a ética que precisa andar pari passu com o avanço da ciência.

Não é aceitável que um pai desconheça que seu filho vem armazenando um verdadeiro arsenal em sua garagem meses a fio.

Os pais precisam saber não apenas o que seus filhos fazem na garagem como também o que se passa nas suas cabeças, sem mencionar os amigos com quem se relacionam.

O certo e o errado não podem permanecer apenas no âmbito dos livros e romances; devem ser ensinados com afeto e principalmente com exemplo.

Frente à tentação do mundo hedonista das drogas, pornografia e violência é obrigação dos educadores fornecer os meios para que o jovem possa discernir entre lazer e manipulação.

Pão e Matspa juntos em Shavuot

Há um antigo costume judaico em Shavuot. Comemos pão convencional (fermentado) juntamente com matsá (pão ázimo) a fim de recordar que naquele dia eram levados dois pães e matsá (não fermentada) ao altar em Jerusalém.

Ambos são elaborados com os mesmos ingredientes, água e farinha, mas o pão, cuja massa cresceu, simboliza a vaidade e o orgulho.

A matsá, este pão achatado, todavia, simboliza a humildade e a modéstia.

Em termos gerais, a matsá representa a retidão enquanto o pão com fermento, a arrogância e a maldade.

Por natureza, qualquer massa fermenta e infla. De forma similar, a criança, apesar de pura, tende para a maldade. É propensa ao egoísmo.

Diz a Torá, “E cuidareis dos pães ázimos…” (Êxodo 12:17).

Na prática, antes que o processo de fermentação se inicie, pegamos a massa e rapidamente a colocamos no forno. Isso, pois, inibe a fermentação natural.

Analogicamente, antes de os nossos filhos se desviarem do bom caminho, devemos cercá-los do calor humano que somente o amor emana.

Eles precisam sentir-se queridos e membros orgulhosos e ativos de algo maior: família, comunidade, sociedade. Isso é um antídoto para que se forme futuros atentados cometidos por jovens.

Eles querem sentir que a vida é preciosa e tem algum objetivo. Querem amar e ser amados; conhecer o ardor dos relacionamentos. Isso é um remédio natural contra a formação de atentados cometidos por jovens

Quando “cuidamos dos pães ázimos (matsá)” — zelando, alertas, pelos nossos filhos contra os males externos e contra suas próprias tendências que os conduzem a ideia do “eu acima de tudo e de todos” — só então essa matsá, a integridade de caráter, é formada.

Mas, infelizmente, é impossível manter uma vigilância constante sobre nossas crianças. O que fazer então?

Soluções para nossos filhos

Segundo o Rabino Bension Milecki, há uma outra solução.

A Torá oferece uma forma alternativa para produzir matsá a partir de uma massa que, de outra forma, fermentaria.

Basta continuarmos a sová-la indefinidamente, trabalhando-a sem parar, não permitindo que ela fique “ociosa” — mesmo que um dia inteiro transcorra, ela simplesmente não fermentará, como bem conhecem as donas de casa.

O mesmo ocorre com os nossos jovens. “Trabalhe-os”. Faça com que se interessem pelas coisas. Dê-lhes muitas responsabilidades e preceitos para cumprir a fim de que não tenham tempo sequer para pensar em pecar.

Certa vez, um mestre chassídico disse: “Eu não quero que meus discípulos evitem o pecado meramente por terem controlado o desejo. Quero, sim, que o evitem por pura falta de tempo.”

Não resta a menor dúvida que os “não” tem sua hora e lugar. Em determinadas ocasiões são mesmo indispensáveis. Mas seguem sendo apenas uma pequena parcela da paternidade e maternidade conscientes.

Os “sim” são infinitamente mais importantes, pois incutem uma personalidade positiva na criança. Daí, devemos ensinar os preceitos e boas ações aos nossos jovens.

Com efeito, é preciso incutir neles o desprendimento, ensinando-lhes a se preocupar com o próximo. Incentivá-los a intelectualizar-se pelo estudo, bem como o respeito à Autoridade Máxima através da oração, no sentido vertical, e do altruísmo, na direção horizontal.

Falência da ideias

Há décadas que o Rebe de Lubavitch alertou: “A falência de ideias e ideologias deixou muitos jovens terrivelmente decepcionados, moral e espiritualmente. Um vazio foi criado em seus corações e mentes, o qual não sabem como preencher.”

Ao mesmo tempo, o Rebe apresentou a solução: “Ao contrário do senso comum que considera as crianças virtuais seres humanos, incapazes de atingir o potencial completo antes da maturidade, a tradição judaica as vê como dignas e merecedoras do nosso tempo a fim de criar um ambiente que as eduque material e espiritualmente, já que personificam a pureza de propósitos, sinceridade, fé e amor à vida.”

O conceito universal da “inocência infantil” quase foi sepultado em Denver e Atlanta. O Judaísmo, baluarte dos valores éticos, insiste que tal pureza pode ainda retornar através de mensagens de fé, esperança e otimismo.

Assim, vamos “trabalhando a massa” e nos envolvendo por inteiro na educação dos nossos filhos. Afinal de contas, enfim, um pouco de luz é capaz de afastar a escuridão mais profunda.

(Publicado no Jornal “O Estado de S. Paulo”)

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