ARTES PLÁSTICAS E JUDAÍSMO: “OS QUATRO VAGÕES DE SOBREVIVÊNCIA” DE GERSHON KNISPEL

As estátuas de Knispel no Ten Yad

Artes plásticas e judaísmo são um binômio nas mãos do artista Gershon Knispel.  É que em cada encontro que tive com o artista eu me impressionei muito com a sua sensibilidade. Um artista verdadeiro que possui uma tendência espiritual.

É verdade que ele é um humanista que luta pela igualdade, justiça e fraternidade. No entanto, eu realmente senti que isso era apenas uma expressão da sua alma que deseja cumprir o mandamento do Criador de ajudar ao próximo. Assim, é certo dizer que, consequentemente,, Gershon Knispel escolheu a arte como meio de servir os fracos e oprimidos.

Nossa convivência aumentou e junto com ela cresceu a sua sede de retornar às suas raízes. De fato sugeri a ele que estudasse a Bíblia Hebraica e Judaísmo com pessoas observantes e tementes a D’us. Isso daria uma nova tonalidade para o que que ele aprendera em sua juventude.

Ele imediatamente concordou.

Um par de tefilin e uma reaproximação da Torá

Pouco tempo depois, decidiu adquirir um par de tefilin para colocar de vez em quando e começou a se aproximar da Torá e Mitsvot.

Ele me falava muito sobre seus encontros com o sobrevivente do Holocausto e testemunha no julgamento de Eichman, Yehiel De-Nur (KaTzetnik), o que fez com que o Holocausto se tornasse um tema central para Gershon.

Comecei a conhecer de perto o seu trabalho, visitei suas exposições (algumas se encontram de forma permanente no Palácio do Governo e no Clube Hebraica); descobri seus monumentos em Israel em homenagem aos soldados tombados nas guerras, e seus trabalhos sobre os personagens e acontecimentos da história do Brasil, e muito mais.

Havia mais talentos a serem explorados

Na realidade, sentia que Gershon não utilizava todos os seus talentos. Gershon Knispel se considerava um artista judeu. Contudo, grande parte das suas obras não se baseava em fontes religiosas e não expressavam o espírito judaico. Nosso artista lutava tanto pela abolição das fronteiras entre as nações e a remoção de barreiras entre as pessoas (devido à sua natureza boa inata e sua busca pela justiça), que ele se esquecera da história de seu próprio povo.

Percebi que chegara a hora das suas obras expressarem os conceitos judaicos, algo que elevaria seu nível espiritual. Isso faz parte do famoso conceito apresentado por nossos Sábios (e enfatizado pela Chassidut): “Eu fui criado para servir o meu Criador” e “Todas as suas ações devem ser feitas em nome de D’us”. É importante notar aqui as palavras do grande líder da nossa geração, o Rebe de Lubavitch, sobre este assunto.

A luz do Tsadic ilumina mais o artista

Assim escreve o Rebe para o escultor judeu Jacques Lipchitz. Ele é reconhecido internacionalmente (nascido na Rússia, viveu nos Estados Unidos e na Itália, tendo conhecido, em sua juventude, Picasso e Chagall): “(…) D’us quer que você aproveite os seus talentos para o benefício do povo judeu em geral e particularmente para os valores judaicos (…). Você tem o privilégio de agir assim usando sua ferramenta particular, o que para certos círculos é o único meio para aprender algo sobre os judeus e o judaísmo (…).

O ponto é que aqueles que foram agraciados por D’us com este dom para a arte, seja na escultura ou pintura, etc., possuem a vantagem de transformar algo inanimado, como pincel, cores e tela, ou madeira e pedra, no formato de uma coisa viva. Num sentido mais profundo, é a capacidade de transformar, em certo ponto, o material em espiritual. Isso mesmo quando o trabalho lida com objetos inanimados. Ainda mais quando a obra de arte está relacionada com animais e seres humanos. Mais ainda quando aproveita a arte para a expressão de conceitos judaicos, principalmente quando se observa Torá e Mitsvot. Isso acaba  elevando o talento artístico ao seu mais alto nível”.

Reconstrução artística do Holocausto

Assim nasceu a ideia das quatro esculturas de parede que retratam a tragédia do Holocausto e da Inquisição e a sobrevivência subsequente. Artes plásticas e judaísmo, portanto, estão juntos aqui.

Gershon dedicou muitas horas de estudo a estas questões sob o prisma judaico-religioso. Escolhemos os versículos relacionados a esses eventos. Obviamente, ele aprendeu a maneira correta para que a escultura não transgredisse o segundo dos Dez Mandamentos, “Não farás para ti nenhum ídolo”, e que se adequasse às orientações da Torá. Nessas quatro esculturas de grandes dimensões, Novamente, artes plásticas e judaísmo se entrelaçam aqui.

Gershon Knispel descreve a tragédia do Holocausto que se abateu sobre o povo de Israel no século XX e também os heróis das revoltas judaicas. Isso vem desde os macabeus até os levantes dos guetos. Em frente há uma descrição da Inquisição e as piras de fogo. Também há o renascimento das comunidades de marranos que retornaram ao judaísmo, apesar de toda a tortura sofrida. Esses murais encontram-se no salão de festas da Instituição Beneficente Israelita Ten Yad, em S. Paulo, Brasil. Uma forma de mostrar as artes plásticas e judaísmo de modo ainda mais forte para muitos Yehudim que frequentam o Ten Yad.

Inicialmente, muitos perguntaram o que tem a ver essas esculturas, que retratam sofrimento e tristeza, com um salão de casamentos e festas? Nossa resposta foi absolutamente clara: Exatamente por isso! Essas celebrações são uma prova viva da revitalização e sobrevivência milagrosa do povo de Israel. Isso graças à providência do Criador sobre Seu povo. A melhor forma de vingança para com todos os inimigos de Israel, a começar pela Inquisição, até os nazistas, é a celebração da circuncisão, do bar mitsvá e dos casamentos. É assim que conseguimos indicar a eternidade do povo judeu.

Com a palavra os especialistas

Os pesquisadores de arte, principalmente o historiador de arte israelense Gideon Efrat, dizem, de forma unânime que as grandes esculturas que enfeitam o salão do Ten Yad – às quais o artista Knispel dedicou três anos de trabalho – são o ápice de sua obra artística. Nelas ele investiu o melhor da sua força e talento, incluindo obras desde o começo de sua vida artística. É assim que o artista reúne as artes plásticas e judaísmo e os leva a um patamar ainda mais nobre.

Gershon Knispel também concorda que esta obra fez grande diferença em sua vida. Isso apesar de ele achar que a diferença está na expressão da sua pintura e na diferença da qualidade tridimensional. Mas, do nosso ponto de vista, a mudança foi mais profunda, particularmente na linguagem da alma. Foi assim que recuperou a sua força original. Não restam dúvidas de que nesses relevos o artista manteve vários padrões de trabalhos anteriores. Contudo desta vez o espírito e o orgulho judaico são sentidos de forma mais pungente. Durante o período de trabalho, o artista dizia que essa obra não o deixava dormir. Isso devido a que ele se sentia inspirado, e os versículos o acompanhavam em seus sonhos.

Importantes estudiosos de arte têm escrito e discutido muito sobre o manco na escultura do Holocausto. Suas conclusões são que ele representa um antigo símbolo dos soldados feridos e a crueldade da Primeira Guerra Mundial. Uma figura que possui muitos precedentes na história da arte e que expressa a tristeza dos oprimidos. Eles observam que mesmo Breughel, o Velho, pintou em 1568 os quatro anões deficientes [Os Mendigos, quadro atualmente exposto no Museu do Louvre, Paris].

Remontando ao patriarca Jacob

A verdade é que o homem coxo na escultura do Holocausto representa uma figura antiga: o Patriarca Jacob. Assim diz o versículo sobre ele, depois de receber um golpe do anjo de Esaú: “Ele mancava em sua coxa”. Porém, pouco tempo depois, o texto bíblico diz: “Jacob veio completo para a cidade de Shechem” – completo e curado da sua ferida. Jacob manco e Jacob curado representam o povo de Israel (o segundo nome de Jacob) em sua decadência e ascensão.

Nossos Sábios do Talmud (Avodá Zará 11b) afirmam que na antiga cidade de Roma havia um ritual público. Ele era mantido uma vez a cada setenta anos. Traziam uma pessoa forte e saudável e vestiam-na com as roupas de Adão, e a faziam montar sobre um homem manco. Era dessa forma que ele anunciava publicamente que Jacob ainda estava sob o domínio de Esaú. É possível então inferir a comunhão das artes plásticas e judaísmo na expressão de artistas como Gershon Knispel.

Reviravoltas da alma judia com as artes plásticas e judaísmo

É isso que a alma do artista descreve por inspiração na escultura do Holocausto:. É assim então que Jacob deixa de ser o manco e fraco e de repente descobre as tremendas forças de sua alma. Ele cura sua deficiência, quebrando as correntes de ferro, e retorna completo e curado. A intenção é clara: a sobrevivência judaica.

O manco não é apenas o herói do Holocausto, mas é o símbolo da eternidade do povo judeu ao longo das gerações. Embora muitos povos poderosos tenham se levantado contra ele, hoje eles se encontram nos museus e nós estamos vivos. Essa eternidade do povo de Israel é uma das grandes maravilhas do Criador. É também um dos milagres incomparáveis (nas palavras de Rabi Jacob Emdin, na introdução do Sidur Beit Yaacov).

O mesmo se aplica à escultura sobre a Inquisição e as revoltas; não é apenas uma bela homenagem à memória desses mártires, mas principalmente indica a vitória do espírito judaico; não há fogo no mundo que possa queimá-lo e não há água no mundo que possa apagar a fé pura que pulsa no coração judaico. A força de Israel não esmorece, e o judeu não pode e não quer romper com seu judaísmo.

Símbolo vivo da sobrevivência judaica

Assim também ocorre com a escultura da pomba de Noé forjada por Knispel, que se encontra no Memorial da Imigração Judaica em S. Paulo. Um exemplo vivo de como artes plásticas e judaísmo ganham relevância novamente.

Aqui também surge um símbolo forte da sobrevivência judaica na Diáspora em todos os exílios. Isso mesmo que ele tenha sido muitas vezes expulso e “a pomba não tenha encontrado nenhum descanso para seu pé”. Mesmo assim, de qualquer forma, “enquanto eles estiverem na terra de seus inimigos, Eu não Me desgostarei deles nem Me cansarei deles a ponto de destruí-los e quebrar Meu pacto com eles. Eu sou D’us, o Senhor deles” (Levítico 26:44), “Nessa ocasião os recolherei de onde estiverem e os trarei de volta, e farei com que sejam motivo de louvor e de renome entre todos os povos da terra, porque os farei regressar de seu cativeiro diante dos olhos de todos – diz D’us” (Sofonias 3:20).
Prefácio do livro Knispel – A Retrospectiva: 60 anos de criação de Gershon Knispel, Editora Maayanot, S. Paulo, abril de 2016

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