As cartas e respostas do Rambam foram impressas pela primeira vez em Constantinopla, logo após o advento da imprensa, sob o título de “Respostas e Cartas do Grande Luminar, a Luz Ocidental, Nosso Mestre Rabi Moshé, o Maimoni – Consultas vindas do leste e do oeste, do norte e do sul, dos sábios da França, Espanha, Iêmen e Babilônia”. Corria, então, o ano de 1513.
Mais tarde, em 1559, o mesmo material seria reimpresso em Veneza com o título de “Cartas do Grande Luminar”. A primeira edição deste livro foi publicada pelo Rav Astruck Provèncial, de Toulon.
Após as publicações iniciais, a maioria das respostas permaneceu desaparecida por mais de 250 anos, sendo novamente publicadas somente em 1764, em Amsterdam. O livro, bem mais completo do que os anteriores, continha 148 respostas coletadas daquelas escritas em árabe que se encontravam no Marrocos, de propriedade do Rav Yaacov Sasportas.
A partir daí, começaram a surgir mais e mais cartas de Maimônides. De suma importância foram os manuscritos compilados e assinados de próprio punho pelo Rambam e localizados na guenizá do Cairo.
As publicações mais completas do assunto são as edições de Freiman (Jerusalém, 1934) e Blau (Jerusalém, 1961), que hoje já contam com 446 respostas. Vale citar que a grande maioria dessas cartas datam do período em que Maimônides viveu no Egito (1167-1204) e foram originariamente escritas em árabe, com exceção das respostas aos sábios de Lunel e Montpellier.
A bem da verdade, é impossível comparar a correspondência do Rambam com as suas grandes obras de Torá e filosofia. Nestas últimas, conhecemos o genial filósofo e grande legislador; aquele que domina o intelecto e que emite, do alto de seu conhecimento, opiniões e pensamentos aos leigos distantes. Nas cartas, ao contrário, percebemos um homem possuidor da complexidade interior que o aproxima do resto da humanidade.
Ficamos, então, conscientes das duas facetas de um mesmo Maimônides: uma delas pertencente à elite intelectual, com percepção e traços elevados e a outra revelando um homem emotivo e sentimental. Em “Epístolas”, percebemos não apenas o lado filosófico e legislativo. Encontramos também a sensibilidade, o coração amigo que procura a paz verdadeira. Descobrimos as preocupações com o filho doente vindas do âmago da alma do pai piedoso, a dedicação do súdito fiel e o sofrimento do enlutado que chora a morte prematura do irmão e que se aflige pelo sustento da viúva e da filha. Somos brindados com grandeza e com humildade para com os discípulos e amigos, simpatizantes e detratores (sim, sempre houve), ricos e pobres, indivíduos e comunidade.
Os livros de Maimônides já disponíveis em vernáculo comprovam o seu apurado senso de organização. É possível afirmar, inclusive, que desde o término pela editora Maayanot, S. Paulo, da Mishná, Maimônides ostenta, por suas obras, o título de “maior organizador”, principalmente naquelas sobre legislação e filosofia. O Rambam se utiliza de uma ordem de pensamento semelhante a uma corrente, com elos firmemente conectados. De acordo com o escrito por Maimônides no capítulo “Chelek” de San’hedrin: “Não se precipite em sua leitura, pois eu não o escrevi de forma aleatória, mas após muita meditação, introspecção e avaliação entre as opiniões corretas e errôneas”. Não me parece um erro, portanto, afirmar que ele mantém uma ordem impecável também em sua correspondência.
Que D’us nos auxilie a usufruir também na correspondência deste grande líder, de sua Torá e sabedoria, bem como da grandeza de sua alma e da pureza e generosidade de seu caráter.
 
(Extraído do prefácio do livro Epístolas de Maimônides, Editora Maayanot)