Ao escrever a famosa Epístola do Iêmen em 1172, quando Maimônides morava no Cairo ou Fostat (antigo Cairo, ao lado da capital), Rabi Moshé ben Maimon não se preocupou apenas com questões filosóficas ou legislativas. Ele igualmente se engajou, de maneira profunda, na batalha pela sobrevivência das comunidades judaicas ameaçadas de desaparecimento. Fez também questão de definir os grandes alicerces da religião e crenças judaicas a fim de oferecer aos seus contemporâneos judeus os meios necessários para resistir aos excessos populares e entusiasmos messiânicos errôneos.
Algumas de suas belíssimas cartas foram escritas espontaneamente e no exercício da obrigação de ensinar, orientar, encorajar e lutar por seu povo humilhado, como no caso da conhecida Iguéret HaShmad (Epístola Sobre a Perseguição).
Contrariando este espírito, a confecção da Epístola do Iêmen não foi voluntária; ela se constituiu em uma réplica àqueles que, aflitos, foram buscar auxílio junto ao grande sábio, à época já reconhecido mestre. E este devolveu uma responsa longa e completa à comunidade iemenita, tendo como intuito “fortalecer as mãos fracas e firmar os joelhos trêmulos” (Isaías 35:3), citando o profeta na introdução à obra.
Conforme o próprio autor menciona em sua Epístola aos Rabinos de Marselha, os judeus do Iêmen sofriam, atônitos, ferrenha perseguição religiosa por parte do governo e seus delatores, além das influências maléficas geradas por um falso profeta, insano arauto da vinda imediata do Mashiach. Os notáveis da comunidade, então, liderados pelo Rabi Yaacob Al-Fayumi, escreveram ao Rambam pedindo, implorando ajuda.
Maimônides, percebendo a confusão e as dúvidas que assolavam seus irmãos, além do perigo iminente do total extermínio, respondeu com a Epístola do Iêmen, um instrumento eficaz para sua lógica sempre irrefutável e estilo inconfundível.
A Carta disserta sobre o antigo ódio ao Povo Judeu e os motivos das várias perseguições sofridas, a eternidade e peculiaridade de Israel, os Fundamentos da Fé, as outras crenças, cálculos apocalípticos, a futurologia através dos astros e o Mashiach. Tudo isso meticulosamente elaborado para provar a insanidade do homem que se levantou no Iêmen, demonstrando não ser ele o esperado redentor, e sim apenas um demente que, segundo o mestre, deveria ser confinado para sua própria segurança, bem como o bem estar da comunidade.
Ao final de sua exposição histórica, o Rambam solicitou ao Rabi Al-Fayumi que copiasse e difundisse suas palavras por todas as comunidades do Iêmen.
À exemplo da maioria de suas obras, a Epístola do Iêmen foi escrita originalmente em árabe, língua de seus destinatários, exceto pela breve introdução em hebraico, sendo posteriormente vertida à este idioma por três famosos tradutores: Rabi Shmuel Ibn-Tibon (seis anos após o falecimento do Rambam), Rabi Avraham Ibn-Hasdai (cujo manuscrito encontra-se na Biblioteca de Munique) e Rabi Nachum Hamaaravi (a mais conhecida tradução, publicada pela primeira vez em 1629 e que serviu de base para o nosso livro).
 
(Extraído do prefácio do livro Epístola do Iêmen)

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