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Assim como os pais devem priorizar a educação dos filhos, antes de investir em outros bens materiais, a comunidade também deve criar condição para que todos estudem em escola judaica. Essa é a opinião do rabino Y. David Weitman, que nessa entrevista exclusiva fala sobre os principais desafios da educação judaica.

TRIBUNA JUDAICA: COMO AVALIA A EDUCAÇÃO JUDAICA HOJE NO MUNDO, NO BRASIL, E EM ESPECIAL NA COMUNIDADE PAULISTANA?
Rabino Y. David Weitman: A educação é um dos maiores desafios do nosso século. Hoje é possível extrair o combustível do pré-sal, desenvolver tecnologia de ponta, ir até Marte, conversar com o outro lado do oceano pelo celular, tudo isso. Mas se fizermos uma pesquisa entre os pais e perguntar com quantos dos filhos eles tiveram sucesso na educação, se foram atingidas as metas estabelecidas, as respostas não serão tão positivas. Certos jovens fogem dos padrões de integridade de pessoas boas, dignas, honestas. Não por vontade própria, mas porque perdem os valores e muitas vezes a recuperação é complicada. E não estou falando de dependentes químicos, estou falando dos que se envolvem em um mau ambiente, com amigos errados, e que não conseguem mais sair, pedem ajuda, pois sair sozinho é complicado. Nesse sentido, a educação é uma dos grandes questões da qual não temos muito sucesso. Vou fazer uma citação para explicar melhor. O rei Salomão disse que “uma boa educação é, quando a criança envelhecer, não se desvia do que aprendeu na juventude” (Provérbios: 22:6). Não é fácil. Einstein também falou algo interessante: “Educação é aquilo que sobra depois que a pessoa esquece tudo o que aprendeu na escola”.

TJ: E COMO FAZER PARA SE ALCANÇAR ESSE OBJETIVO?
YDW: É preciso ter professores que não são apenas computadores ou enciclopédias ambulantes. Precisamos de profissionais que tenham coração, que conheçam o aluno e aproxime-se dele. Conhecimento e informação o computador tem mais. Precisamos então de pessoas que entendam as novas gerações, falam sua língua e são capazes de gerar interesse para que eles abram um livro. Sofremos hoje com uma falta enorme de interesse. Há mais livrarias em Buenos Aires que em todo nosso país. Mesmo na comunidade judaica, há pessoas que nunca abriram um livro. O professor deve usar métodos modernos para ensinar os valores antigos.

TJ: E COMO SE ACHA OU SE FORMA ESSES PROFESSORES?
YDW: Para isso é necessário que haja recursos, pois eles precisam ser formados, e, principalmente, devem ser professores que acreditam em nossos ideais. Senão, como se diz hoje, é um gol contra. Se você coloca em uma escola judaica alguém que não acredita nos nossos ideais, nossos valores, como o Shabat, a saída do Egito, o valor da família, do respeito aos pais, esse profissional não pode ser um exemplo e, portanto, não pode ser professor. Ele irá transmitir coisas perigosas às crianças.

TJ: O QUANTO A FAMÍLIA TEM RESPONSABILIDADE NESSE PROCESSO?
YDW: Jamais se deve colocar a culpa somente na escola. No Judaísmo, tudo começa em casa. Mesmo que se coloque a criança em uma escola judaica ou se complemente com uma escola informal judaica não basta. Tem que ter em casa o respeito, o cumprimento das tradições… Se o pai não faz o Seder de Pessach, não senta com a família e prepara seus filhos e os coloca no ambiente, os filhos não irão aprender. Não dá para aprender somente com a teoria. O que fica em uma criança são as coisas que, quando ainda é pequena, ela visualiza. Se você visualizou quando criança que seu pai vai à sinagoga com talit embaixo do braço, isso fica. Tudo começa em casa: tsedacá, integridade, respeito à mulher… Depois vem a escola. Mas também precisa ressaltar que estamos em uma geração de imigrantes pós-Holocausto, e a grande maioria dos judeus que vieram para o Brasil tinha pouco conhecimento. Não por culpa deles. Muitos pais, cujos filhos estudam mishná na escola, ou mesmo chumash, não conseguem acompanhar. Por isso, hoje a responsabilidade da escola é maior que antigamente. Os pais devem ser orientados que não se deve culpar as escolas, pois não existem escolas sob medida. Cada uma vai achar um defeito. Se você quer educar seu filho para ele ser um homem íntegro, generoso bondoso, isso deve ser ensinado em casa. A formação é em casa, a informação na escola.

TJ: NESSE CONTEXTO, COMO A FAMÍLIA SEM RECURSOS FINANCEIROS PODE COLOCAR UM FILHO EM UMA ESCOLA JUDAICA?
YDW: Como na sociedade brasileira, existe uma disparidade econômica dentro da comunidade judaica. Alguns se permitem colocar os filhos em escolas particulares caras, e outros não são capazes nem de pagar uma escola até barata, relativamente falando. Cada escola deve batalhar, assim como toda instituição judaica. A titulo de exemplo apenas, se eu promovo uma colônia de férias e tenho 50% de bolsistas, tenho que sair a campo e conseguir esse dinheiro para poder integrar essas crianças. Se eu quero que crianças pobres tenham férias dignas como todo mundo, se eu assumi esse compromisso, tenho que buscar esse dinheiro. Se uma escola se propõe a cuidar da educação, tem que ter dentro de seu orçamento uma parte para bolsistas. É uma obrigação da comunidade, que pode fazer um fundo para isso, ou um imposto. Pessoas dedicadas devem lutar para que os mais pobres tenham acesso à educação judaica. Agora, do outro lado, os pais também devem ser edu-cados que a primeira coisa a se pagar é a escolaridade. Antes de cogitarem férias, um automóvel de última geração, tem que priorizar a escola. Então deve haver um esforço dos dois lados, com os pais entendendo melhor essa prioridade e a comunidade se esforçando para ter fundos para dar educação judaica a todos.

TJ: SE OS JOVENS ESTÃO SE AFASTANDO DOS VALORES BÁSICOS, MUITAS VEZES POR NÃO TER BONS EXEMPLOS E OS PAIS NÃO PRIORIZAM A EDUCAÇÃO JUDAICA, COMO EDUCAR ESSES PAIS?
YDW: Temos que começar por baixo da pirâmide. Temos que educar os filhos agora, pois dificilmente mudamos alguém que tem 50 anos. Existe uma fuga das escolas judaicas, é uma realidade que tem que ser avaliada. Tínhamos três ou quatro escolas não religiosas 25 anos atrás, cada uma com mais de mil alunos, e hoje, com dificuldade. Cada uma tem cerca de um pouco mais da metade e, para sobreviverem, tem que se unir. Isso é para se pensar. Se pegarmos apenas os sintomas, sem estudar a raiz do problema, não vamos curar o assunto. Essa questão necessita uma reflexão sincera de pessoas desinteressadas. Há uma fuga grande das escolas não-religiosas, enquanto que nas escolas religiosas e tradicionais estamos assistindo a uma proliferação de uma de-zena de escolas a mais, e todas com muitos alunos. Temos que entender esse fenômeno. Estou disposto a participar desse debate, pois acho que tem a ver com o que falamos no início da entrevista, sobre qual o tipo de professor temos que procurar, que vai motivar o aluno, dar exemplo próprio, acreditar no que ensina… É uma questão de valores. Houve uma inversão de valores que deve ser recolocada nos trilhos. Citando o Rebe de Lubavitch: “a educação não é a mera transmissão de conhecimento, ou a preparação para uma profissão, mas é principalmente a aquisição de valores, de preparação do caráter, de incutir respeito a si mesmo, aos pais, aos mestres e aos colegas. Isso começa na tenra idade, e não quando o menino faz Bar Mitsvá”. Essa é uma boa receita para nos prepararmos para uma época melhor e cada um de nós com os valores corretos assistir a vinda do grande Educador, que será Mashiach.

(Matéria publicada no Jornal Tribuna Judaica de outubro de 2009)

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Fonte: chabad.pt

 

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